sábado, 9 de fevereiro de 2008

Tempo de coisas amadas



TEMPO

Wesley Barbosa Correia





Também o tempo desta cidade não é o outro tempo da cidade em que nasci. Naquela, o tempo se faz comum de tudo, todo avesso a este tempo daqui: assim cortado, raquítico, quase não sendo hora alguma, quase estrangulando o segundo. É só o instante de esperar para andar, começar a caminhar, parar de novo e assim recomeçar.
Aí o homem está:
como eu
quando nem quero ser.
Cidadezinha sim: pode-se pegar na contagem do ponteiro, pode-se até enjoar do tanto de tempo que se tem, pode-se arreliar de conhecer o tempo, pode sentar, fugir de si e depois se angustiar. Aqui, quase nada, homens ou objetos, jamais se angustia, nem a quentura dos pneus rolando na massa do petróleo, o pavor do capeta, essa mão do não que impede a mão, o pé, o joelho da gente.
O olho de vô foi capaz de paralisar o tempo. Ele recosta à parede esburacada. Cada buraco de bicho guarda um susto, um lamento, a cega conquista. Vô não se move, mas sente que a vida a sua volta é exatamente o que ele deseja. Vô é um conjunto de muitas vidas que vivem infinitas por dentro dele.
A vida são buracos na parede.
A vida suave, vulnerável – a vida. Eu olho o mistério que habita o quarto de vô. Ele quietinho, calado. Vô num vôo atemporal. Agora, só importam coisas que não se medem, figuras sem hora: tinha mato seco no quarto? tinha jaca doce? água de coco? tinha porco no quarto? Vô não conta o passo da galinha, entretanto infere o destino de cada pisada. Capaz que ele pense que várias pisadas de galinha na lama resultem em metafísica boba. Porque pensar em galinha, às vezes, é gratificante já que um dia, há muitos e muitos dias, um sábio solitário advertiu que apenas elas aprenderam a viver em paz neste mundo de meu deus.
Galinhas parecem cruéis e não passam de pura vagação.
Mais nada.
Qual?
Pensar em galinhas: no tempo curto e solitário que compassa seu coraçãozinho tão imenso ao nosso coração. Galinha é um bom motivo empírico, mas por vezes, enjoa buscar, entender e saber-lhe da felicidade nos pés tridentes.
Talvez seja melhor não pensar em quanto tempo o tempo leva para se gastar. Ou menos se se gasta. Ou menos se se sabe. Ou menos se demora, se passa ligeiro, se escorrega, se empaca. Mas sua razão de ser divino é que ele se transforma à proporção em que transforma nossos pretensos espíritos.
Por exemplo: para vô, o tempo é um vento calmo; para mim, a surpresa existencial reside na hora inesperada em que os sinais se fecham e os carros param; para a cidade em que nasci, ele é somente pura memória: tudo o quanto dói, esse olhar ao avesso – invasivo do corpo sem escudo, da carne sem pele.
Amanhã é algum tempo?
Hoje, o que resta de mim é também algum tempo indefinido. Criaram o tempo para ser claro como o estado das leis de Montesquieu? Ou criaram-no para ser como a noite em que a menina escreve os versos eternos?
Seremos a antológica criatura de um deus Tempo que nos zomba e confunde a todos? Um dia pensei que o mundo de imagens vãs - originário dos textos que li – fosse pura casualidade, mas hoje, alguém superficial e quase inexistente, com grande exatidão, lembrou-me que, ao contrário, o mundo me fez a voz que sou, sem a qual não seria nada, voz sedutora das dissipações.
Daqui a tempos, no tempo ardiloso desta narrativa, a cidade será, vô e as galinhas serão a exata matéria de tudo o que desejarem, nós – tu e eu – seremos um. Finalmente.

2 comentários:

Elly Ramos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kareen Couto disse...

Wesley Barbosa... lendo este texto consegui por instantes ouví-lo de você, com seu vozeirão de locutor! Amei o Blog, Bjs.