
O MUNDO IMPERCEPTÍVEL DE LUIZA
Elly Ramos
Puxa as persianas, e assim, pode ver os flamboyantes, o céu azul com suas nuvens brancas. O sol arde, forçando os seus olhos a fecharem. Bem ali, no quarto andar do velho prédio, um galho de flamboyant oscila na vidraça de sua janela, e lá entre as folhas de verde-claro e muitos buquês de flores de vários tons de vermelho, está um pardal a festejar a primavera. Ela debruça sobre o peitoril da janela e se perde, distanciando-se de tudo.
Ontem à noite na tv ouvi anunciando que nos EUA haviam dois jovens que morreram em um jardim zoológico; não lembro ao certo se foram mortos por uma onça, ou um tigre, ou... o certo é que foi um animal faminto e feroz. Feroz... ?! O homem é feroz? Talvez, talvez o mais... creio que seja o mais feroz dos animais. O homem! Esse ser pensante é capaz de matar por tudo e por nada. Eu mesma, Luiza, mato-me todos os dias. Hoje amanheci e tomei uma taça de veneno, antes de dormir repetirei a dose e em todos os momentos oportunos vou lá e me auto-enveneno.
O apartamento que Luiza morava era pequeno, com apenas cinco cômodos: dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Todas as janelas ficavam para o nascente, assim sendo, a temperatura alçava muito nos dias de primavera, e principalmente de verão. Além disso, ficava localizado à margem de uma via paralela. Naquela manhã, o apartamento estava calmo, as crianças na escola e o seu marido trabalhando. Como sempre quase não se encontravam.
Luiza era calada, serena, nunca perdia a calma com as crianças e muito carinhosa com o marido. Mas... estava sempre brigada consigo mesma. E, especialmente hoje, com um dia lindo, mas quente de quase queimar os miolos. Seus pensamentos não a deixavam em paz:
Luiza era calada, serena, nunca perdia a calma com as crianças e muito carinhosa com o marido. Mas... estava sempre brigada consigo mesma. E, especialmente hoje, com um dia lindo, mas quente de quase queimar os miolos. Seus pensamentos não a deixavam em paz:
Os pássaros são felizes e cantam, mesmo nos dias quentes... Eu, olho para tudo isso e não me encontro, tenho tudo, assim dizem: “você tem um ótimo marido, filhos lindos...”. Bem, não sei se isso é tudo, mas também não sei o que quero. E esse vazio, esse vazio me consome. Não tenho medo da morte, mas, mas a vida me assusta. Vejo-a passar por esta janela, é como a água da pia que escorre entre os meus dedos. Acho... que é a beleza da vida que me encanta e me assusta como se eu não tivesse o direito de possui-la. É isso! Eu, sinto-me pequena, muito pequena diante da vida. Sou o ponto da interrogação em uma página em branco. E assim vou tecendo meus pensamentos, ingerindo minhas pequenas doses diárias do meu próprio veneno.
A campainha toca insistente e Luiza desperta do seu transe. Não havia mais o pardal em frente à janela. Ela sai calma como sempre, abre a porta, beija os filhos e pede para a empregada pôr a mesa do almoço. Logo depois brinca com as crianças, auxilia nos deveres, passeia com o cão toda sorridente; mas a noite cai, o sol se põe, as crianças dormem e ela vai para a janela ver a lua, as estrelas e tudo aquilo que tanto lhe encantam. Assim, vai se auto-envenenando e se deliciando... Por vezes, seus pensamentos voam sobre os verdes framboyantes. As flores agora já não têm os tons avermelhados, e sim, os amarelados, pois, foram banhadas pela luz do luar. Mas as horas passam. Luiza olha o playground: não há mais crianças, porém, alguns passantes enamorados. Olha para o estacionamento e lembra que não tardará a chegada do marido, então, corre para seu quarto desliga as luzes. E tudo é silêncio, até sua respiração é cadenciada... Talvez, talvez mesmo assim, Luiza se auto-envenene com os seus deliciosos sonhos.
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