quarta-feira, 6 de março de 2013



                                         Elly Ramos
O hóspede 

Chegou calado com uma pasta negra no peito, apertada entre os braços. Pediu a chave do quarto 413 para a recepcionista. Ela o olhou ao entregar-lhe a chave, ele nem percebeu, saiu rápido com passos firmes e de cabeça ereta a resmungar palavras inaudíveis. Deu preferência à escada, abolindo assim, o elevador. Abriu a porta do 413, entrou sem olhar para o interior do quarto e sem desgrudar da pasta, sentou-se na cadeira ao lado da cama, juntou as pernas uma na outra apertando-as  até sentir dor... Afastou-as e sorriu. Levantou-se, olhou ao redou, colocou a pasta em cima da cama, foi até a janela, viu a noite movimentada, luzes oscilando: faróis, postes e toda a vida urbana; pessoas que não paravam de andar. Olhou para o pulso, o relógio marcava 22:31 horas. O celular vibra em um dos bolsos da calça. Falou para si: “não vou atender” deixou chamar até parar. Olha a pasta preta em cima da cama e ao aproxima-se, esfregou uma mão na outra, sorriu e foi ao banheiro. Olha-se ao espelho, vê o seu cabelo grisalho, algumas rugas no rosto e nos olhos a inquietude que a vida o proporcionou. Lavou o rosto e voltou. Olhou a pasta mais uma vez, sentou-se na cama resolvido a abri-la. Ao tocar no fecho, seus dedos estão trêmulos. Ele abre e tira o terço e começou a desfiar conta por conta entre os dedos. Os lábios se moviam rapidamente em murmúrio como se o contar retrocedesse o tempo. Viu-se ainda menino, andando atrás de uma garotinha saindo. Viu sua primeira transa. Viu toda sua vida entre os dedos ágeis e as contas. Automaticamente desabotoou a camisa e pôs-se a esfregar o terço em seu peito, por todo o seu corpo, correu por dentro das calças e quase a machucar-se. Sorriu com um olhar prazeroso. Sorriu, fechou os olhos absorvido pelo êxtase. Virou-se e no rosto másculo os lábios finos convulsos, moviam-se de dor, mas engoliu o  líquido salgado  provocado pelo prazer. Soltou o terço, foi ao banheiro, ligou a ducha fria e ficou parado a deixar, em abundância, a água percorrer por todo o seu corpo. Era quase manhã. O sol já despontava na janela. Pensou: “Há seis anos a quero com desespero e nunca fui correspondido, e nem podia ser. Estava linda naquele vestido e no decote o brilho dourado.” Mas no início da noite anterior, casou-se com o Pedro, o seu único filho. Assistiu a cerimônia religiosa. Não teve coragem de vê-los brindar. Lembrou-se daquela noite em que viu os corpos nus entrelaçados em sua própria cama. Olhou-os da porta que haviam deixado entre aberta. “Sussurrou: Maria, Maria, Maria...” Pegou a toalha e enrolou-a na cintura. Voltou para o quarto, olhou o terço e pensou “divinos e mortos são os que amam. Loucos os que desejam demais.” Vestiu-se e colocou o terço de volta. Sentiu fome e ligou para o serviço de quarto. A pasta estava aberta sobre a cama entre os lençóis. Ele olha para ela, um olhar carinhoso. Passa a mão no rosto e sente a barba mal feita, precisa corrigir isso. Entra no banheiro e procura na gaveta a lâmina. Estava tão absorvido que não ouviu a batida. Ao virar em direção à porta, a lâmina fere seu rosto. Vem à sua lembrança o sangue que escorria do joelho dela. Sempre a via no parque, quando fazia caminhadas. Naquele dia ela caíra da bicicleta e ele se aproximou para socorrê-la. Ao inclinar-se para ela, seus olhos foram atraídos.... Ele abre a porta, mal-humorado. A camareira entra com seu café. Nesse momento percebe a mala e lança para ela um olhar curioso, o que o deixa irritado. Deseja puxá-la pelo braço e apressar sua saída, mas o celular volta a tocar neste instante e tira sua atenção. Não atende. A presença dela o incomoda. A moça deixa a bandeja na mesinha ao lado da cama e ao inclinar-se pende do seu colo o brilho. Ele se apressa em detê-la, mas ela já vai saindo pela porta. Sua respiração ofegante e seu olhar fixo... Ele fecha porta e com a testa encostada nela transpira. Enquanto a pasta preta, aberta em cima da cama, guarda sua preciosa coleção: correntinhas com crucifixos e terços.