Elly Ramos
O
hóspede
Chegou
calado com uma pasta negra no peito, apertada entre os braços. Pediu a chave do
quarto 413 para a recepcionista. Ela o olhou ao entregar-lhe a chave, ele nem
percebeu, saiu rápido com passos firmes e de cabeça ereta a resmungar palavras
inaudíveis. Deu preferência à escada, abolindo assim, o elevador. Abriu a porta
do 413, entrou sem olhar para o interior do quarto e sem desgrudar da pasta,
sentou-se na cadeira ao lado da cama, juntou as pernas uma na outra
apertando-as até sentir dor...
Afastou-as e sorriu. Levantou-se, olhou ao redou, colocou a pasta em cima da
cama, foi até a janela, viu a noite movimentada, luzes oscilando: faróis,
postes e toda a vida urbana; pessoas que não paravam de andar. Olhou para o
pulso, o relógio marcava 22:31 horas. O celular vibra em um dos bolsos da
calça. Falou para si: “não vou atender” deixou chamar até parar. Olha a pasta
preta em cima da cama e ao aproxima-se, esfregou uma mão na outra, sorriu e foi
ao banheiro. Olha-se ao espelho, vê o seu cabelo grisalho, algumas rugas no
rosto e nos olhos a inquietude que a vida o proporcionou. Lavou o rosto e
voltou. Olhou a pasta mais uma vez, sentou-se na cama resolvido a abri-la. Ao
tocar no fecho, seus dedos estão trêmulos. Ele abre e tira o terço e começou a
desfiar conta por conta entre os dedos. Os lábios se moviam rapidamente em
murmúrio como se o contar retrocedesse o tempo. Viu-se ainda menino, andando
atrás de uma garotinha saindo. Viu sua primeira transa. Viu toda sua vida entre
os dedos ágeis e as contas. Automaticamente desabotoou a camisa e pôs-se a
esfregar o terço em seu peito, por todo o seu corpo, correu por dentro das
calças e quase a machucar-se. Sorriu com um olhar prazeroso. Sorriu, fechou os
olhos absorvido pelo êxtase. Virou-se e no rosto másculo os lábios finos
convulsos, moviam-se de dor, mas engoliu o
líquido salgado provocado pelo
prazer. Soltou o terço, foi ao banheiro, ligou a ducha fria e ficou parado a
deixar, em abundância, a água percorrer por todo o seu corpo. Era quase manhã.
O sol já despontava na janela. Pensou: “Há seis anos a quero com desespero e
nunca fui correspondido, e nem podia ser. Estava linda naquele vestido e no
decote o brilho dourado.” Mas no início da noite anterior, casou-se com o
Pedro, o seu único filho. Assistiu a cerimônia religiosa. Não teve coragem de
vê-los brindar. Lembrou-se daquela noite em que viu os corpos nus entrelaçados
em sua própria cama. Olhou-os da porta que haviam deixado entre aberta.
“Sussurrou: Maria, Maria, Maria...” Pegou a toalha e enrolou-a na cintura.
Voltou para o quarto, olhou o terço e pensou “divinos e mortos são os que amam.
Loucos os que desejam demais.” Vestiu-se e colocou o terço de volta. Sentiu
fome e ligou para o serviço de quarto. A pasta estava aberta sobre a cama entre
os lençóis. Ele olha para ela, um olhar carinhoso. Passa a mão no rosto e sente
a barba mal feita, precisa corrigir isso. Entra no banheiro e procura na gaveta
a lâmina. Estava tão absorvido que não ouviu a batida. Ao virar em direção à
porta, a lâmina fere seu rosto. Vem à sua lembrança o sangue que escorria do
joelho dela. Sempre a via no parque, quando fazia caminhadas. Naquele dia ela
caíra da bicicleta e ele se aproximou para socorrê-la. Ao inclinar-se para ela,
seus olhos foram atraídos.... Ele abre a porta, mal-humorado. A camareira entra
com seu café. Nesse momento percebe a mala e lança para ela um olhar curioso, o
que o deixa irritado. Deseja puxá-la pelo braço e apressar sua saída, mas o
celular volta a tocar neste instante e tira sua atenção. Não atende. A presença
dela o incomoda. A moça deixa a bandeja na mesinha ao lado da cama e ao
inclinar-se pende do seu colo o brilho. Ele se apressa em detê-la, mas ela já
vai saindo pela porta. Sua respiração ofegante e seu olhar fixo... Ele fecha
porta e com a testa encostada nela transpira. Enquanto a pasta preta, aberta em
cima da cama, guarda sua preciosa coleção: correntinhas com crucifixos e
terços.
