Imagem: Pedro Rocha Nogueira
Sonho
Elly Ramos
O lugar era escuro como a noite ou era noite, ela não sabia. Estava sentada ao seu lado outra pessoa, não a conhecia. Estavam no acostamento de uma pista movimentada. Por um instante, ao ver um ônibus, deitou o seu corpo, vagarosamente na cama negra e ainda quente, em direção à luz que ofuscava os seus olhos. Mas, recolheu rapidamente quando viu as ferragens e os grandes pneus do gigante que se aproximava. Voltou a sentar. Serenamente permaneceu a olhar a paisagem de um verde escuro que contracenava com o asfalto. Tudo mudava rapidamente. As cenas pareciam fleches, cliques acelerados de câmara fotográfica. Já não estava lá. Como o virar de uma página, voltou à casa da fazenda de seus pais onde passou toda a sua infância. Assim estava ela em cima da mesa quadrada da sala de jantar. Incrível como se equilibrava com a mesa inclinada e com os dois pés esquerdos da mesa suspensos. Como esta estava próxima da janela, a garota segurava o arame farpado que servia como varal de roupas no beiral da casa, permanecendo com a metade do corpo na parte interna e a outra metade na parte externa da casa através da janela. Os pés impulsionavam, fazendo com que balançasse para dentro e para fora. Suas mãos muito brancas a segurar firme o varal. Os olhos fixos a olhar anjo e demônio beijando-se e com os corpos inclinados quase a encostarem ao chão, pareciam estátuas de mármore: Vênus e Pã na terra dos mortais, em terreno lamacento, naquela paisagem escura no meio de sons de bichos domésticos. Logo a cena deixa o espaço, na mesma velocidade do balaço do corpo da garota entre a mesa e o arrame farpado, e o que vê agora é um rio de águas sujas que separa o passeio da casa, da mata escura e perdida em seus pensamentos. Com o olhar quase de transe, observa uma cobra a cair de uma das árvores. Ouve o som das folhas e dos caules a oscilarem com o corpo anelado que mais parecia içar voo, voo para baixo que logo alcança a terra e faz um barulho maior. Neste instante tênue, tudo parece parar por um segundo de atenção, cautela. Até a galinha levanta a cabeça e sai cocoricando assustada. A garota desce ligeira da mesa e corre em direção à porta aberta da cozinha a gritar, a gritar. Mas, parece que ninguém a ouve. Estão todos em casa e ninguém a ouve. “Vem uma cobra em direção a casa, a mim...!!!” Vê a cobra atravessar o rio imundo com o corpo imerso a fazer ondas naquelas águas e a mostrar apenas a cabeça. Serpenteando rapidamente o seu corpo entre pedras e lama, alcançando a porta. Avança sua mandíbula na mão esquerda da menina que momentos antes tão firmes seguravam o varal farpado. É tomada por uma grande dor e desespero. Encontra coragem não sabe de onde, para com a outra mão apunhalá-la na cabeça. A cobra contorce o corpo e, em forma de bote, abre mais a presa e mais uma picada, mais outra. A garota a apunhala mais e mais até ver o sangue da serpente escorrer e se misturar ao seu. A cabeça já mutilada, só bem visível os dentes afiados e brancos. Mesmo assim, ela grita a pedir a sua mãe um copo que estava próximo dela sobre a mesa, em seu desespero continuamente de livra-se daquele bicho asqueroso. Em certo momento, sai dali com a mão machucada, achando possível o seu fim. Andando, parecendo arrastar o seu corpo, atravessa a sala e vai até um dos quartos. Aquele perto do banheiro. E cai no piso de tijolos crus, próximo à cama. Não sabe como se levantou. Dirigiu-se ao outro quarto onde encontra sua mãe saindo de dentro do quarto que era seu, e o seu pai, meio agitado a consertar a bermuda um pouco grande para o seu corpo magro. Há anos morrera. Estava ali sorrindo, ajeitando-se. Ambos felizes. Parecia que acabavam de fazer sexo e estavam satisfeitos. Mas no quarto havia água, como se houvesse uma ducha que esqueceram de desligar. Tudo transmudava rapidamente em seu sonho. Ao acordar, depara-se com o seu cotidiano, também miserável.

Nenhum comentário:
Postar um comentário