Instantes
De certa
distância, lá estava esticada sobre o capô do velho automóvel, parado
propositadamente à beira-mar, olhou preguiçosa para as ondas que batiam e
voltavam a trazer suaves espumas, olhou para o senhor e duas crianças a brincar
sorridentes, felizes. Fechou os olhos, largou os braços em direção à cabeça e
deixou-os deslizar, dementes, a quase ficar pendurados para fora do capô
vermelho e as pernas acompanhavam os movimentos, largadas ficaram totalmente
feito pêndulo. Ainda com as pálpebras fechadas, movimentou a cabeça de modo
indubitável, esqueceu-se de sua própria presença, entregou-se ao nada e já não
sentia seus membros, era como se fosse um balão, ou uma boneca inflável e sem
ar, talvez. Permaneceu assim: ao nada, sem ser nada, até uma pena de pássaro
pesaria mais do que aquele corpo inerte. Ah, e se alguém a olhasse só veria,
apenas, os movimentos indescritíveis das finíssimas penugens do seu copo que o
vento ousava acaricia-las com o sopro frio do fim de verão, mas quem teria este
olhar tão miraculoso? Não interessa, na certa seria o olhar invisível,
magnífico. E, o nada se tornou escuro, escuro e escuro. Transcendeu os mundos,
perduraram alguns minutos... sem sentido. Não percebeu o céu nublado, nem a
pipa que o ventos rasgara no espaço, nem mesmo as gotículas miúda que chovia e
molhava seu corpo imóvel, mas uma voz, uma voz ativa e amável de uma criança a
trouxera à beira-mar.

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