quinta-feira, 1 de agosto de 2013


Instantes
                                                                                                                                               Elly Ramos


De certa distância, lá estava esticada sobre o capô do velho automóvel, parado propositadamente à beira-mar, olhou preguiçosa para as ondas que batiam e voltavam a trazer suaves espumas, olhou para o senhor e duas crianças a brincar sorridentes, felizes. Fechou os olhos, largou os braços em direção à cabeça e deixou-os deslizar, dementes, a quase ficar pendurados para fora do capô vermelho e as pernas acompanhavam os movimentos, largadas ficaram totalmente feito pêndulo. Ainda com as pálpebras fechadas, movimentou a cabeça de modo indubitável, esqueceu-se de sua própria presença, entregou-se ao nada e já não sentia seus membros, era como se fosse um balão, ou uma boneca inflável e sem ar, talvez. Permaneceu assim: ao nada, sem ser nada, até uma pena de pássaro pesaria mais do que aquele corpo inerte. Ah, e se alguém a olhasse só veria, apenas, os movimentos indescritíveis das finíssimas penugens do seu copo que o vento ousava acaricia-las com o sopro frio do fim de verão, mas quem teria este olhar tão miraculoso? Não interessa, na certa seria o olhar invisível, magnífico. E, o nada se tornou escuro, escuro e escuro. Transcendeu os mundos, perduraram alguns minutos... sem sentido. Não percebeu o céu nublado, nem a pipa que o ventos rasgara no espaço, nem mesmo as gotículas miúda que chovia e molhava seu corpo imóvel, mas uma voz, uma voz ativa e amável de uma criança a trouxera à beira-mar.

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