Aila Santana
Tudo
começou com uma proposta. Eu era novo na cidade e precisava de um emprego para
me manter, afinal de contas, eu não tinha mais os meus pais para me sustentar a
muito tempo, já que desde muito novo eu almejava minha a independência, sempre
quis as minhas coisas, sempre quis fazer o que bem entendesse com o meu próprio
dinheiro e hoje, aos 21 anos, eu consegui essa independência. Desde que sai da
casa dos meus pais, eu morava de aluguel ali e aqui, mas sempre por perto da
casa deles, só que dessa vez, resolvi ir mais longe, eu mudei de cidade e
decidi dividir um apartamento com o meu amigo britânico, apartamento que ficava
no centro de Londres, no bairro The City, onde existia um dos pontos turísticos
mais lindos do mundo, na minha opinião, a Tower Bridge. Acontece que sempre fui
muito independente, como já disse antes, e não queria viver às custas do meu
amigo, que já tinha um emprego numa academia que ficava nas redondezas. Foi
quando ele me propôs que eu trabalhasse na mesma academia que ele, sendo
professor, o que foi perfeito já que amava a área e tinha formação nisso.
Confesso que, apesar de estar amando a cidade, me sentia um pouco melancólico,
sei lá, era apenas estranho, era como se faltasse algo, ainda mais quando
amanhecia chovendo, aquela cidade parecia estar sempre nublada, o que, piorava
o meu estado de angustia sem razão.
Até
que eu comecei a trabalhar na academia, que era lindíssima por sinal, e lá, eu
sentia como se eu esquecesse de todas as minhas paranoias inexplicáveis quando
eu via ele dançar. “Quem é ele Ed?”, perguntei no meu primeiro dia
de trabalho, completamente encantado ao meu amigo, enquanto eu via aquela
criatura perfeita flutuar de forma suave e delicada pela sala de vidro em que
dançava, ele era sem dúvidas a coisa
mais preciosa que eu já tinha visto em toda a minha vida.
Dono
de um par de esmeraldas preciosas, que certamente ele chamava de olhos, pele
alva que me fazia fantasiar no quão macia deveria ser, cabelos da cor de ouro
com cachinhos adoráveis, boca corada e um par de covinhas que lhe faziam ainda
mais encantador, eu simplesmente não conseguia parar de olhar.
“Ah
meu amigo... desiste. Só te digo isso, desiste.” Ed me disse dando duas
tapinhas no meu ombro, me aconselhando. Eu o olhei meio confuso e perguntei:
“Desistir? Porque eu faria isso? Eu nunca vi nada tão... tão... tão impecável
como esse garoto. Quem é ele cara?” Insisti ficando ainda mais curioso. “Ele
tem problemas, que além de machuca-lo, podem te machucar também, me escuta bem,
não se envolve com ele...” Ele disse em tom paterno e eu voltei a olhar para ele, para o bailarino que parecia uma
joia rara, a mais brilhante e reluzente de todas “O que uma pessoa como ele
poderia fazer para me machucar? Olha só para ele... ele é incrível! Preciso
falar com ele, preciso conhecer ele.” Falei sem sentir o sorriso
instantaneamente bobo que habitava em meus lábios “Cara, não faz isso, ele já
está no estágio final, não tem mais volta, ele está tentando disfarçar, mas
decidiu lutar sozinho, você não é o primeiro que se encanta por ele, ele é
realmente lindo, mas acredita em mim, você não vai conseguir mudar isso. Ele é
perfeito, eu sei, todo mundo sabe, mas sei também de algo que não posso falar e
sim, se você se envolver, você vai se machucar. Esquece ele!”.
Meu
amigo disse tudo aquilo e saiu, me deixando ali com aquelas palavras na cabeça.
Eu não entendi nada. Nada mesmo. Estágio final? Lutar sozinho? Como assim? Eu
continuava a olhar o pequeno cacheado e sentir meu peito apertar com tudo, tudo
mesmo, afinal de contas, coisa boa é que não deveria ser. Será que eu já estava
envolvido? Em tão pouco tempo?
Passando-se
algumas horas, a academia fechou e depois de dar uma desculpa qualquer para
despistar o Ed, que foi para o apartamento, eu fiquei esperando o bailarino
sair, assim, poderia segui-lo, poderia tentar uma conversa, ou sei lá o que eu
poderia fazer, só queria ter algum contato com ele, eu precisava daquilo.
Chovia muito, mas mesmo assim, o segui debaixo de chuva, ao ver ele deixar a
academia. Eu só precisava de coragem para falar com ele, mas a verdade é que eu
estava com um pouco de receio, Ed tinha me assustado. Quando finalmente tomei
coragem e comecei a andar mais rápido para me aproximar dele, no meio da rua
deserta, escura e molhada, o garoto, que aparentava ter 17 anos, simplesmente
parou de andar. Eu parei também. O que ele ia fazer? Será que ele sentiu a
minha presença ou alguma coisa do tipo? Resolvi me aproximar ainda mais, porem
ele continuava parado. “Você está bem?” Quebrei o silencio ao ficar numa
distância bem pequena com ele, que estava de costas para mim.
Nem
uma palavra, ele não disse nada.
“Ei?
Você está bem?” Insisti, erguendo minha mão e, receosamente tocando seu ombro
gélido e molhado. E então aconteceu, foi como um flash, foi muito rápido mesmo,
só pude ouvir o som de seu corpo pequeno e delicado ir de encontro ao chão
encharcado antes mesmo que eu tentasse lhe segurar, assim que lhe toquei o
ombro, o garoto foi ao chão. Quando me abaixei para tentar ajudar, para ver o
que aconteceu, me veio a surpresa: ele estava simplesmente morto.
Não
ouvi sua voz, não senti seu cheiro, não lhe toquei o rosto, não beijei-lhe os
rosados lábios, só senti a dor de ver morrer alguém que eu daria tudo por
conhecer. Agora o pequeno bailarino vai dançar nas nuvens, vai encantar os
anjos, assim como me encantou, vai embelezar os céus e vai flutuar,
literalmente. Eu só queria saber porque... O que tinha acontecido afinal?
“Tarde
demais para não se envolver, verdade? O câncer o levou, eu sinto muito cara.”
Ed me explicou tudo na manhã seguinte, quando soube do que tinha acontecido “Eu
te disse para não se envolver”
“A
gente não escolhe, nunca escolhemos e nunca vamos escolher. Só chega! Chega e vai
na mesma rapidez de um piscar de olhos. É assim que perdemos tudo! A doença não
mata, a insegurança é que mata” Disse com um suspiro e um sorriso tremulo nos
lábios que jamais dançariam com os lábios do bailarino.
Não
perca tempo, não deixe para fazer/dizer algo depois se você pode fazer/dizer
agora.

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