quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O BAILARINO

                                                                                                                                               



                                                                                                                                             Aila Santana

Tudo começou com uma proposta. Eu era novo na cidade e precisava de um emprego para me manter, afinal de contas, eu não tinha mais os meus pais para me sustentar a muito tempo, já que desde muito novo eu almejava minha a independência, sempre quis as minhas coisas, sempre quis fazer o que bem entendesse com o meu próprio dinheiro e hoje, aos 21 anos, eu consegui essa independência. Desde que sai da casa dos meus pais, eu morava de aluguel ali e aqui, mas sempre por perto da casa deles, só que dessa vez, resolvi ir mais longe, eu mudei de cidade e decidi dividir um apartamento com o meu amigo britânico, apartamento que ficava no centro de Londres, no bairro The City, onde existia um dos pontos turísticos mais lindos do mundo, na minha opinião, a Tower Bridge. Acontece que sempre fui muito independente, como já disse antes, e não queria viver às custas do meu amigo, que já tinha um emprego numa academia que ficava nas redondezas. Foi quando ele me propôs que eu trabalhasse na mesma academia que ele, sendo professor, o que foi perfeito já que amava a área e tinha formação nisso. Confesso que, apesar de estar amando a cidade, me sentia um pouco melancólico, sei lá, era apenas estranho, era como se faltasse algo, ainda mais quando amanhecia chovendo, aquela cidade parecia estar sempre nublada, o que, piorava o meu estado de angustia sem razão.
Até que eu comecei a trabalhar na academia, que era lindíssima por sinal, e lá, eu sentia como se eu esquecesse de todas as minhas paranoias inexplicáveis quando eu via ele dançar. “Quem é ele Ed?”, perguntei no meu primeiro dia de trabalho, completamente encantado ao meu amigo, enquanto eu via aquela criatura perfeita flutuar de forma suave e delicada pela sala de vidro em que dançava, ele era sem dúvidas a coisa mais preciosa que eu já tinha visto em toda a minha vida.
Dono de um par de esmeraldas preciosas, que certamente ele chamava de olhos, pele alva que me fazia fantasiar no quão macia deveria ser, cabelos da cor de ouro com cachinhos adoráveis, boca corada e um par de covinhas que lhe faziam ainda mais encantador, eu simplesmente não conseguia parar de olhar.
“Ah meu amigo... desiste. Só te digo isso, desiste.” Ed me disse dando duas tapinhas no meu ombro, me aconselhando. Eu o olhei meio confuso e perguntei: “Desistir? Porque eu faria isso? Eu nunca vi nada tão... tão... tão impecável como esse garoto. Quem é ele cara?” Insisti ficando ainda mais curioso. “Ele tem problemas, que além de machuca-lo, podem te machucar também, me escuta bem, não se envolve com ele...” Ele disse em tom paterno e eu voltei a olhar para ele, para o bailarino que parecia uma joia rara, a mais brilhante e reluzente de todas “O que uma pessoa como ele poderia fazer para me machucar? Olha só para ele... ele é incrível! Preciso falar com ele, preciso conhecer ele.” Falei sem sentir o sorriso instantaneamente bobo que habitava em meus lábios “Cara, não faz isso, ele já está no estágio final, não tem mais volta, ele está tentando disfarçar, mas decidiu lutar sozinho, você não é o primeiro que se encanta por ele, ele é realmente lindo, mas acredita em mim, você não vai conseguir mudar isso. Ele é perfeito, eu sei, todo mundo sabe, mas sei também de algo que não posso falar e sim, se você se envolver, você vai se machucar. Esquece ele!”.
Meu amigo disse tudo aquilo e saiu, me deixando ali com aquelas palavras na cabeça. Eu não entendi nada. Nada mesmo. Estágio final? Lutar sozinho? Como assim? Eu continuava a olhar o pequeno cacheado e sentir meu peito apertar com tudo, tudo mesmo, afinal de contas, coisa boa é que não deveria ser. Será que eu já estava envolvido? Em tão pouco tempo?
Passando-se algumas horas, a academia fechou e depois de dar uma desculpa qualquer para despistar o Ed, que foi para o apartamento, eu fiquei esperando o bailarino sair, assim, poderia segui-lo, poderia tentar uma conversa, ou sei lá o que eu poderia fazer, só queria ter algum contato com ele, eu precisava daquilo. Chovia muito, mas mesmo assim, o segui debaixo de chuva, ao ver ele deixar a academia. Eu só precisava de coragem para falar com ele, mas a verdade é que eu estava com um pouco de receio, Ed tinha me assustado. Quando finalmente tomei coragem e comecei a andar mais rápido para me aproximar dele, no meio da rua deserta, escura e molhada, o garoto, que aparentava ter 17 anos, simplesmente parou de andar. Eu parei também. O que ele ia fazer? Será que ele sentiu a minha presença ou alguma coisa do tipo? Resolvi me aproximar ainda mais, porem ele continuava parado. “Você está bem?” Quebrei o silencio ao ficar numa distância bem pequena com ele, que estava de costas para mim.
Nem uma palavra, ele não disse nada.
“Ei? Você está bem?” Insisti, erguendo minha mão e, receosamente tocando seu ombro gélido e molhado. E então aconteceu, foi como um flash, foi muito rápido mesmo, só pude ouvir o som de seu corpo pequeno e delicado ir de encontro ao chão encharcado antes mesmo que eu tentasse lhe segurar, assim que lhe toquei o ombro, o garoto foi ao chão. Quando me abaixei para tentar ajudar, para ver o que aconteceu, me veio a surpresa: ele estava simplesmente morto.
Não ouvi sua voz, não senti seu cheiro, não lhe toquei o rosto, não beijei-lhe os rosados lábios, só senti a dor de ver morrer alguém que eu daria tudo por conhecer. Agora o pequeno bailarino vai dançar nas nuvens, vai encantar os anjos, assim como me encantou, vai embelezar os céus e vai flutuar, literalmente. Eu só queria saber porque... O que tinha acontecido afinal?
“Tarde demais para não se envolver, verdade? O câncer o levou, eu sinto muito cara.” Ed me explicou tudo na manhã seguinte, quando soube do que tinha acontecido “Eu te disse para não se envolver”
“A gente não escolhe, nunca escolhemos e nunca vamos escolher. Só chega! Chega e vai na mesma rapidez de um piscar de olhos. É assim que perdemos tudo! A doença não mata, a insegurança é que mata” Disse com um suspiro e um sorriso tremulo nos lábios que jamais dançariam com os lábios do bailarino.



Não perca tempo, não deixe para fazer/dizer algo depois se você pode fazer/dizer agora.





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