
Tauan Carvalho
E
lá estava ele, parado em pé, deparando-se com o seu caos particular, sua cria
desde sempre, desde que se entende por gente. Estava cara a cara com o artefato
que considerava o pior objeto de tortura: o espelho. Com ele observava todos os
detalhes do seu corpo, que configuravam-se para ele como imperfeições.
Sentia-se como um estranho no universo, um intruso na redoma, uma ovelha negra,
enfim, uma merda. Sentia-se estagnado em relação ao seu futuro, sem saber para
onde ir, perdido em si, confuso nos seus pensamentos, desejando para aquilo
tudo um fim e tudo isso, todo esse temporal de loucuras e idéias que vão do céu
ao inferno em questão de minutos.
Era
apenas uma luta entre ele e o seu maior inimigo: ele mesmo. Não se sentia dono
de si, possuidor do próprio corpo, tinha consciência de que aquele ser não era
ele, era apenas uma idealização de uma parte de uma família perfeita, de um ser
perfeito em todos os sentidos possíveis e imagináveis. Queria revelar seu
verdadeiro eu, expor toda a sua verdade para o mundo, ser verídico e sincero
tanto para si quanto para os outros. Só queria se recriar, fantasiar que ele
poderia ser o que quisesse. Em um piscar de olhos, gritos, silêncio, terror,
medo e coragem, tomou um fim para si. Despiu-se do pudor, se travestiu e fugiu
daquele lugar, daquele espaço de tempo, enfim, fugiu dali.
Adornou-se,
enfeitou-se com vestido, salto alto, batom, e foi para o acaso na urbe das
maravilhas profanas. Tirou a capa da covardia banal e vestiu-se da armadura de
guerreiro, amazona da sua vida. Transformou-se no seu melhor devaneio.
Arriscou-se sem medos, nem freios. Pegou o primeiro vagão para o infinito e foi
sem se importar com o que deixou para trás, desceu do trem, saiu da estação e
entrou na primeira balada que avistou. Com toda a sua lingerie, perfume e
rouge, não queria afrontar, apenas se divertir sem arrependimentos, apenas amor
para dar e receber.
Entrou
na discoteca, se entregou à dança dos achados e perdidos daquela vil cidade.
Tornou-se alvo de vários olhares: alguns 43, outros de frigidez, quase todos de
estranhamento. Ele sabia e deixava passar, fazia a “egípcia” para eles, só
desejava se doar como sacrifício ao desconhecido. Entregou-se aos seus paraísos
artificiais, sonhos acordados, beijos de instantâneos amados, manifestações
loucas, cortejou a insanidade, osculou a sua ilusão. O salto doía, porém sorria
e lembrava que machucava que tinha que omitir. Degustava o prazer e dor de se
vestir como mulher. Livre, leve, solto, com seu instinto selvagem amparando o
motim.
Enfim
saiu da balada, tinha o ímpeto de rolar pela noite sem traços jogando-se no
abismo do nosso acaso. Andava feliz pelas ruas iluminadas pelos faróis e
outdoors cadentes da urbe das maravilhas profanas, bailando ao som da sua
alegria sem medidas, sentiu-se uma pancada na parte posterior da sua cabeça.
Iniciava assim a maior tortura real da vida daquele sonhador praticada por dois
seres humanos que detestavam a felicidade alheia e não tinham a capacidade de
encontrar o entendimento em tolerar a diversidade dos seres vivos e
demonstravam assim o pior lado da raça humana, enquanto na mente daquele
menino, que se travestiu a fim de ir atrás do final do arco-íris, afagar seu
caos com uma dose de verdade em sua vida. Enquanto era espancado com aquelas
grandes lâmpadas, recordava-se de tudo o que tinha vivenciado naquela dada
noite, sorria como se estivesse satisfeito com todo o seu impulso e logo
depois, após uma última pancada, essa que foi a mais forte e drástica, se
entregou ás mãos da morte: era o seu fim.
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