segunda-feira, 29 de junho de 2009


O Dominó preto

Florbela Espanca


Havia já mais de oito anos que andava atrás dela. E só agora conseguira que ela se resolvesse a ouvi-lo. Há tantos anos, santo Deus! Ainda ele estava moço na mercearia da Rua dos Olivais, ainda nem sonhava que lhe haviam de dar sociedade na casa, nem tinha amealhado os seis contos de réis que tinha agora na Caixa Geral de Depósitos, já gostava dela, já gostava de a ver passar, pisando no seu passinho grácil e desenvolto a calçada de pedras pontiagudas. Os gritinhos que ela dava quando punha o pé em falso, o pé de boneca calçado de sapatinhos de verniz com saltos de palmo e meio! E quando entrava na loja! O cubículo escuro, sujo, feio, era de repente um grande salão feérico todo cheio de luzes, deslumbrante de asseio, bonito como nenhum. O pobre caixeirito, de mãos deformadas pelas frieiras, de larga cara bonacheirona e ingénua, ridículo no seu fato de cotim da mangas curtas, de cabeleira encrespada e sobrancelhas hirsutas, ficava a olhar para ela, esquecido do que lhe haviam pedido, vendo apenas na sua frente a boca fresca e os olhos gaiatos da rapariguinha risonha que, sem piedade, troçava dele constantemente. Mas que lindo riso o dela! Muito aberto, muito sonoro, enchia a casa de trilos de pássaros, mostrava-lhe os dentes todos muito sãos, muito brancos, e toda branca por dentro, muito cor-de-rosa como a polpa carnuda e sumarenta dum morango acabado de colher numa manhã de Primavera.
No banco da avenida, sob a acácia já cheinha de folhas, noite escura, o Joaquim entretinha-se a passar religiosamente as contas do seu rosário de recordações dos longos anos que passara atrás dela, inutilmente, mendigando sem se cansar um bocadinho de amor que matasse a fome e a sede ao seu corpo de adolescente casto que nunca se atrevera a seguir uma mulher pelas ruas escusas, pelos cantos misteriosos, quando a cidade cúmplice fecha os olhos e finge que dorme.
Sempre gostara daquela, daquela só, e um dia – já lá iam dois anos! – enchera-se de coragem e dissera-lho. A gargalhada que ela lhe dera na cara! Tinha-a Aida nos ouvidos, aquela divertida e escarnecedora gargalhada que lhe fizera chegar as lágrimas aos olhos.
Ele era um pobre diabo, mas queria-a, queria-a como sabem querer os rústicos das suas montanhas, queria-a como todo o ardor dos seus vinte anos, cheios de seiva como um chaparro novo, queria ganhá-la custasse o que custasse, embora tivesse de andar de rastos atrás dela a vida inteira. Tinha tempo! E assim fez: trabalhou sem descanso e sem desalento meses e meses, todos os dias do ano, quer de Inverno quer de Verão, mal luzia o Sol no alto até noite fechada, sem domingos nem dias santos. Mal pago e mal alimentado, mourejou e fez vontades, foi servo de toda a gente, com a tenaz ideia fixa encasquetada a martelo no estúpido bestunto, sem querer saber de mais nada, não dando conta do que ia pelo mundo, do que se passava para além do encardido balcão de pinho, aonde lhe ia correndo a mocidade, agrilhoado ao trabalho como um escravo.
O patrão, com o andar dos tempos deu finalmente por ele, observou-o, e um belo dia, deitando contas ao lucro que podia tirar duma bela acção, mandou-o ensinar a ler. À noite, depois da loja varrida e tudo arrumado, que o patrão não se ensaiava para lhe pregar dois murros bem puxados, o rapazito descia os dois degraus que fazia comunicar a lojeca com a húmida toca onde dormia. Ah, se as paredes pudessem falar! Um coto de vela a arder sobre a única cadeira de pau e, sentado na cama de tábuas, as mãos crispadas nos cabelos rijos, cabelos de fome, a cabeça tonta, doido de sono, o pobre lá ia decifrando as letras, soletrando, juntando as sílabas, estudando a lição para o outro dia, à custa de esforços desesperados e duma força de vontade que nenhuma força poderia vencer. Quando compreendia, a larga cara bonacheirona iluminava-se-lhe num sorriso que, entre aquelas quatro paredes, onde as aranhas teciam tranquilamente as suas teias de seda e prata fosca, era por si só um belo milagre de amor! O manancial de águas claras que na planície vai matar sedes e reverdecer os campos, jorra do seio das duras pedras das montanhas em sítios agrestes, longe e alto!
Uma noite, ao estudar a lição, deu com o nome dela: “Maria”. Soletrou-lhe as duas sílabas, de olhos arregalados, boca aberta, num êxtase, e os grossos lábios, subitamente, sem ele saber como, foram pousar-lhe no livro roto e cheio de nódoas, sobre as sílabas mágicas, enquanto as lágrimas lhe saltavam dos olhos e os soluços lhe enchiam o peito. Esteve mais de meia hora a soletrar-lhe o nome: “Ma-ria”, a olhar para as letras, sinais cabalísticos que queriam dizer tudo o que ele tinha para dizer, traços que faziam surgir, como varinhas de condão, um mundo de coisas boas, de coisas que ele nem sabia porque eram tão lindas e tão boas!
E assim foram passando os anos. A pouco e pouco foi subindo, juntando dinheiro, à custa de se privar de tudo, de economias insensatas, ia-se matando; mas conseguira juntar os seis contos de réis, que tinha na Caixa, que eram bem dele, só dele, e alcançar sociedade na casa, sociedade que também lhe dava um lucrozinho certo que não era nada para desdenhar…
E o Joaquim ria-se baixinho com um riso feliz, no seu banco da avenida, debaixo da acácia já cheinha de folhas, onde os pardais dormiam muito encostadinhos uns aos outros por causa do frio. Já tinha com que pôr a casa, um quarto ou quinto andar numa casinha acabada de construir, numa rua sossegada e limpa, que ele tinha já debaixo de o lho, ali para os lados do rio. E não ficava muito longe da mercearia… poderia ir e vir todos os dias a pé, para poupar o dinheiro do eléctrico… Uma mobília de quarto, de guarda-vestidos com portas de espelho… um aparador de pedra mármore… cadeiras de palhinha e um canapé para a sala… uma casa de luxo sólido, de coisas boas, que ele tinha dinheiro e não se importava de o gastar todo. Para a vida, lá se iria ganhando, e nunca haveria de faltar à Maria: o casaco de pelúcia, o seu vestidinho de seda de vez em quando e os sapatos de verniz para sair à rua… Nada! Que ele não a queria ver feita uma pobretona, de xale pelas costas e lenço na cabeça. Havia de ser uma senhora, mais linda e mais bem posta que algumas feitas à pressa que ele via por essas ruas, a fingir que eram grande coisa… A sua Maria havia de ter tudo o que ela quisesse e, para começo, já amanhã lhe iria comprar aqueles brincos compridos de pedras azuis que tinha visto na ourivesaria ao lado e que tão bem deviam ficar-lhe, a baloiçarem-se na pontinha rosada da orelha, naquele gesto que ela fazia com tanta graça, a dizer que “não” e “não”, a marota! Sempre, a todos os seus rogos, a todas as suas promessas, a tudo o que fizera para a captar, para a seduzir de há oito anos até… até ontem, Ah, ontem!
E o Joaquim via na noite escura brilhos de lua cheia, escancarava a boca até às orelhas num largo riso silencioso. Ontem!... E o Joaquim fechava os olhos esverdeados que luziam como os de um gato bravo no ardor do desejo, no triunfo de a sentir finalmente conquistada, finalmente muito sua, depois de tantos torvos anos de miséria e de angústia, depois de por ela ter passado fome e frio, depois de a ter querido como sabem querer as almas simples e rudes, na persistência da ideia fixa, invencível e tenaz, encaixada no cérebro branco como silva agarradiça de moita brava.
Ontem!... E o Joaquim via a rua mal iluminada do bairro pobre, a gente que passava afadigada, carregada de embrulhos, gente do povo, gente humilde de volta a casa depois de um dia de fadiga, os eléctricos cheios, num grande ruído de ferragens, tim, tim.. tim, tim... Ladeira abaixo; via-a a ela, onde luzia o ouro duma medalhinha de Nossa Senhora da Conceição; ouvia-lhe o riso garoto cheio de reticências, evocador de carícias proibidas e desejadas, o riso que às vezes lhe fazia vir à ideia coisas em que seria melhor não pensar.
Pobre rapariga! Ia agora fazer caso das coisas que lhe diziam! Não tinha sido nem uma nem duas vezes que lhe tinham dito mal dela; as referências que lhe faziam não eram nada boas, lá isso não! Que não era séria, que não tinha mesmo juizinho nenhum, que o não queria a ele, mas que talvez quisesse outros, que andava metida com gente de teatro, que mais isto e mais aquilo, enfim, um ror de coisas que às vezes o entristeciam. Nada tinham poupado para lhe fazerem perder aquela cisma, para o arredarem daquele fado em que o viam andar há anos, mas tudo tinha sido em vão. Podia lá acreditar uma coisa daquelas! Mentiras! Más palavras de má gente! Invejas!... E o Joaquim cerrava os punhos num gesto de rancor. A sua vontade era esganar toda aquela gente que dizia mal dela, cortar-lhes a língua aos bocados como a blasfemos sem honra nem vergonha que se atreviam a pôr a boca numa órfã honesta e trabalhadora. Costurava para o teatro, era verdade, e então? É por acaso algum crime trabalhar, ganhar a sua vida, a triste côdea e o direito duma telha que a abrigasse do frio e da chuva?! Gente mais ruim!...
Mas agora, no banco da avenida, deitando para trás das costas os maus pensamentos, o Joaquim era feliz, era amado, estava à espera dela, que tinha prometido vir: “Às dez horas lá estarei, no primeiro banco à direita de quem sobe, um pouco acima do Avenida, lá estarei, espere por mim, sem falta.”
Logo ao anoitecer fora para lá, não fosse a ela dar-lhe na cabeça ir mais cedo ou ele ter ouvido mal. Talvez ela tivesse dito às oito horas, já não se lembrava bem, Ele estava como doido! Não era admiração nenhuma ter trocado as horas, ter-se enganado. Ah, ontem!... Sabia ele lá bem de que freguesia era, ao ouvir-lhe dizer, pela primeira vez na sua vida, que sim, que iria falar com ele, combinarem a sua vida, trocarem as suas promessas, falarem de amor. De amor!...
Numa tremura, como se estivesse com uma forte sezão, tacteou o banco onde ela, dali a pouco, se sentaria ao lado dele, mãos nas mãos, olhos nos olhos. A sua Maria! Os pensamentos do seu cérebro zumbiam como abelhas ao sol; não podia seguir o fio de nenhuma ideia; era como se tivesse dentro da cabeça um novelo de fio de ouro, emaranhado, num torvelinho, num rodopio, enrolando-se e desenrolando-se, bordando vertiginosamente visões de sonho, demasiado belas, demasiado douradas para que os seus pobres olhos de simples as pudessem ver sem ficar deslumbrados. Pobre morcego de olhos piscos no resplendor dum meio-dia a arder em sol!
Mas já deviam ser horas. É verdade, que horas seriam? Esteve para ali amodorrado, a falar sozinho, sem prestar atenção a coisa alguma, em ricos de ela passar e não a ver. Tacteou no bolso do colete o grande relógio de prata. Ao puxar por ele, para ver as horas, as mãos enrodilharam-se-lhe no dominó preto que vestia. Sorriu, satisfeito. Mais um capricho do demónio da rapariga, que era levadinha da breca! De que ela se havia de lembrar? Como era Terça-Feira Gorda...
“Leve um dominó preto, com um laço azul no ombro, para o conhecer. Havemos de nos divertir muito!” E ele fizera-lhe a vontade, pois é claro! Mirou-se complacentemente de alto a baixo: o dominó de setineta preta que lhe chegava quase aos pés, comprido como sotaina de clérigo, o farfalhudo laço de seda azul sobre o ombro... Tal qual ela havia dito...
O Joaquim ria, mas, ao ver as horas, o sorriso gelou-se-lhe repentinamente nos lábios. Teve um sobressalto como de quem acorda com um encontrão. Dez horas e meia! Que estaria ela a fazer que não chegava? Já teria passado? Enquanto estivera para ali a cismar, era capaz de ter passado por ele sem ter dado por isso. Murmurou aflito: valha-me Deus! Levantou-se, lançou em torno um olhar esgazeado. Na avenida, a fila ininterrupta dos autos continuava a desenrolar-se. À porta do Avenida, estacionava ainda um grupo palrador; gente corria à sua vida, aos seus prazeres, ao seu destino; duas mulheres passaram por ele numa grande algazarra, rindo muito, fazendo grandes gestos. Pensativo, contornou o maciço de flores vagarosamente, deu mais uns passos para cima, mas, lembrando-se de repente de que ela podia chegar e ir-se embora sem o ver, voltou a correr para o banco.
Mas, afinal, que tolice estar assim a afligir-se por uma demora de meia hora! A rapariga era séria, que diabo Não ia agora duvidar dela, da sua boa fé! O dito, dito. Era ter paciência! Isto de mulheres, nunca estão prontas a horas, é mais um alfinete para aqui, mais uma besuntadela para acolá, mais um laço, mais uma fita... E para largarem o espelho é o cabo dos trabalhos!... E, à doce visão da sua Maria a enfeitar-se para ele, a ver-se ao espelho para lhe parecer bonita a ele, o coração dilatou-se-lhe num suspiro de consolo, e um sorriso radioso entreabriu-lhe novamente os lábios que o sofrimento contraíra.
Agitou-se no banco, envolveu-se melhor no dominó, que a noite ia-se pondo fria, e resolveu esperar com resignação. Passou, porém, uma hora, duas, e ela sem aparecer... A inquietação mordeu-lhe novamente a alma... Porque não viria? Onde estaria àquelas horas da noite?...
Continuavam a passar autos, continuava a passar gente, e ela nada! Nem sombras dela sequer!... Ele bem olhava para todos os lados, bem perscrutava, de olhos muito abertos, as trevas lá no fundo, por onde ela havia de vir. Nada!...
As luzes do Avenida cegavam-no, fechava os olhos para as não ver. A inquietação, a angústia, a mortal aflição dos que esperam sem esperança corroíam-no lá por dentro como chumbo derretido. E o pobre, no meio da multidão folgazã duma noite de Entrudo, tremia como se estivesse num deserto sem vivalma, sem gota de água ou folha de palmeira povoando a imensidade desolada e tétrica, até aos confins do horizonte, até ao fim do mundo!
O polícia de giro, adivinhando do que se tratava, deu uma volta em redor do banco e seguiu, sem lhe dirigir a palavra. Um perdigueiro novo, preto como azeviche, veio rebolar-se na relva a dois passos dele, dando latidos de alegria por se ver solto. Filho-família com tinetas de boémio conseguiu, com as suas cabriolas, arrancá-lo por um instante aos seus lancinantes pensamentos. Estendeu a mão para o acariciar, mas o cãozito, esquivo e desconfiado, fugiu-lhe e perdeu-se nas pesadas sombras duma rua ao lado.
Que horas seriam?... Viu outra vez o relógio: três horas! Ela já não vinha! Era impossível!... Que estava ele ali a fazer naquele maldito banco, sozinho?... Num supremo esforço de toda a sua vontade, retesou os músculos, levantou-se. Um homem que ia a passar recuou assustado, ao ver de súbito na sua frente aquele fantasma negro; depois de passar, olhou ainda para trás, curioso. O polícia de serviço, que já não era o mesmo, perguntou-lhe desabridamente o que estava ali a fazer, há que tempos, naquele banco. Num humilde sorriso, que mais parecia um esgar de choro, respondeu-lhe, esforçando-se por dar ao seu todo um ar pândego, que estava à espera duma rapariga para irem cear, para festejarem a Terça-Feira Gorda... O polícia, satisfeito com a explicação, piscou o olho, indulgente, e seguiu à sua vida. Ele tornou a sentar-se. Podia ser, podia muito bem ser que ela viesse ainda. Ainda não era tarde! Podia ter adoecido... Mas a estes enganos com que pretendia iludir-se, o pobre coração, que era como uma chaga em sangue dentro do seu peito, revoltava-se num sobressalto das suas últimas energias, numa náusea de nojo perante a perfídia imerecida. Ah, Maria, Maria!
Era então verdade todo o mal que diziam dela, todo o mal que lhe tinham dito! Sem vergonha, sem juízo, sem consciência, passava a vida a desgraçar homens, a desgraçada! Mas então a sua casinha, a sua casinha nova na rua limpa e sossegada, as suas economias, todos os seus sonhos, toda a sua vida?! Que seria feito daquilo tudo, santo deus?! Ah, a mentira, a ilusão de todos esses miseráveis anos que tinham passado, o escárnio de engano que tinha sido o ar que respirara, o pão que comera a viver para ela, a trabalhar para ela, a sofrer por ela! Não a teria nunca, nunca! Não lhe saberia nunca o gosto à boca, àquela boca de tentação, vermelha e húmida, como um cravo a abrir!
Soluços violentos faziam-lhe estalar o peito, a emoção apertava-lhe a garganta em tenazes de ferro, caíam-lhe lágrimas em fio pela cara abaixo. Na sua grotesca humildade era um espantalho desprezível. Mascarado, ridículo, lavado em lágrimas, era mais infeliz que as pedras e dava vontade de rir!
Quatro horas! O riso dela, rio cheio de reticências, riso canalha e escarninho, fustigou-o como uma chicotada na cabeça, ao evocá-lo. Tinha feito pouco dele! Nunca fizera tensões de vir! Onde estaria ela?... Ah, Maria, Maria!...
Num arranco, apalpou no bolso das calças, com a mão crispada, o canivete que trazia sempre; de olhos fechados, a boca torcida num ricto odioso, abriu-o e, num gesto de doido, enterrou fundo no pulso a estreita lâmina afiada. O sangue jorrou como um repuxo e salpicou-lhe os dedos. Sem pensamentos, a cabeça a fugir-lhe, tonto, desvairado, soltou um grito rouco, abafado como um rugido de fera ferida, dobrou-se sobre si mesmo como um fantoche e, de olhos muito abertos, ficou-se a contemplar, num ar pasmado, o sangue a correr-lhe pela mão, em grossos traços negros até ao chão.
Para as bandas do oriente o céu tomava uns vagos tons de nácar. O perdigueiro boémio, cansado de folgar, veio a passos lentos para ele, cheio de gravidade, desconfiado, farejando de longe o sangue. Os pardais, aconchegados na acácia que a Primavera enchera já de folhas tenras, começavam a mexer-se e a pipiar docemente.
O Joaquim quis levantar-se, mas não pôde, quis abrir os olhos, não teve forças. Um grande bem-estar invadia-lhe o corpo todo, um estranho entorpecimento tornava-lhe as pernas e os braços moles como trapos. A cabeça pendeu-lhe paras as costas do banco. O sangue continuava a correr pelo braço, pela sotaina negra, num ténue fiozinho tépido.
De repente, aos ouvidos do moribundo chegou vagamente, como num sonho, um ruído de passos. Fez um grande esforço para se endireitar, para pensar: Seria ela?... Os passos aproximavam-se... Nas primeiras claridades ainda indecisas da madrugada adivinhou-se um grupo de homens e mulheres vestidos de dominós pretos. Vinham conversando e rindo animadamente, de volta de um baile, talvez...
Ao passar por ele, uma das mulheres exclamou:
- Olha aquele no banco, parece um faz-tudo.
- Está bêbado – disse a outra.
E uma gargalhada estridente acordou a manhã como um gorjeio de pássaro. Ao ouvir aquele riso que se afastava, o agonizante, no seu banco, estremeceu. Num medonho esforço conseguiu desembaraçar-se da mortalha que o envolvia já, conseguiu expulsar o fantasma da morte que rondava perto e pôde mexer os braços, abrir os olhos. Ele bem sabia que ela havia de vir, ele bem sabia!...
O rido juvenil extinguia-se na sombra, em notas de clarim... O grupo afastava-se, sumia-se ao longe...
O moribundo tornou a deixar cair os braços, tornou a fechar os olhos e ficou-se muito rígido, muito estendido no seu banco, com um sorriso nos lábios, iludido e contente...
O céu num pálido azul-esverdeado, acentuava os tons de madrepérola como uma grande concha aberta, dourava-se levemente na orla... Uma andorinha, a primeira, passou veloz como uma seta, tente à cara dele, com um gritinho agudo de alegria...
Despontava a madrugada.

EM BUSCA DE UM NOVO RUMO

Florbela Espanca


Já homenzinho, nas longas noites de Inverno, acocorado à chaminé onde o madeiro crepite, lê embevecido, horas a fio, todo o Júlio Verne, histórias de piratas e corsários; o navio-fantasma enfeitiça-o; os naufrágios heróicos entusiasmam-no; foi durante anos todos os capitães de navios naufragados, morrendo no seu posto, aos vivas a Portugal!
No liceu sonha com a Escola Naval: é uma ideia fixa. Põe a um gato abandonado, repelente, todo pelado, encontrado numa suja travessa das imediações do liceu, o nome de "Marujo"; a uma galinha, a quem endireitara uma perna quebrada, ficou-lhe chamando "Canhoneira"; o cão, seu companheiro de folias, chamava-se "Almirante".
No dia em que pela primeira vez envergou a linda farda da Escola, quando o estreito galão de aspirante lhe atravessou a manga do dólman azul escuro, foi como se S. Pedro abrisse, diante dele, de par em par, as bem-aventuradas portas do paraíso. Era marinheiro! Sabe lá a outra gente o que é ser marinheiro! Para ele, ser marinheiro era a única maneira de ser homem, era viver a vida mais ampla, mais livre, mais sã, mais alta que nenhuma outra neste mundo! O seu forte coração, sedento de liberdade, era, no seu rude arcaboiço de marujo, como um pequeno jaguar saltando do fundo da jaula, estreita e lôbrega, contra as barras de ferro que o retêm afastado da selva rumorosa.
Ao pôr pela primeira vez o pé num navio, lembrou-se do tanque da sua infância e sorriu; o mesmo clarão de antes, de fascinação e de triunfal alegria, iluminou-lhe os olhos garços; as pálpebras tiveram o mesmo estremecimento de voluptuosidade e cobiça. O rio sempre era maior que o tanque de outrora... Quando viu fugir Lisboa, afogada nas sombras violetas do crepúsculo, e deparou com todo o mar na sua frente, a sua alma audaciosa, rubra do sangue a escachoar dos seus irrequietos vinte anos, tomou posse do mundo, num olhar de desafio!
Quando voltou, porém, meses depois, vinha desiludido, furioso contra o seu sonho, que se tinha ido quebrar, como todos os sonhos, insulso e embusteiro, de encontro à banalidade ambiente. Aquilo, afinal, era uma maçada, uma tremendíssima maçada! O mar, todo igual, monótono embalador de indolências. Não havia corsários nem piratas; o navio-fantasma era um fantasma dos seus sonhos de outrora. O mar era mais lindo nos livros e nos quadros. Os poetas e os artistas tinham-no feito maior do que ele era; afinal, era pequenino como o tanque, acabava ali perto... Não tinha sido preciso arriscar nem uma só parcela de vida; não havia no seu navio mulheres e crianças a salvar; não havia naufrágios heróicos; o capitão nem uma só vez teve ocasião de ir ao fundo, no seu posto, aos vivas a Portugal! E sorria, com uma grande ironia nos olhos claros de expressivo olhar de lutador.
Renegou o seu culto sem pesar nem remorsos, com a mais completa das indiferenças e, dum dia para o outro, o mar que tinha sido a grande quimera da sua ardente imaginação de meridional, que tinha sido a sua nova, a sua amante nos dias felizes da adolescência, foi atirado para o lado, no gesto negligente de um bebé que atira pela janela fora uma concha vazia.
"Aquilo afinal era uma maçada, uma tremendíssima maçada!" e os olhos claros, investigadores, de olhar acerado como o das aves de rapina, procuraram ardentemente outra coisa. Franziu os sobrolhos, no ar recolhido e concentrado de quem excogita, de quem procura uma solução difícil... Olhou o céu profundo... e achou! Um avião! Era aquilo mesmo. Ser aviador é melhor que ser marinheiro! É abraçar no mesmo braço o céu e o mar! na linguagem dos símbolos, a âncora, definindo a esperança, nunca poderá valer as asas, que são a libertação. A âncora agarra-se ao fundo e fica, as asas abrem-se no espaço e penetram no céu. Seria aviador! E foi.

segunda-feira, 16 de março de 2009



Mark Twain


Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jo-vem da bela cidade de San José.
Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia-Maria - provavelmente um pseudônimo.
A pobre garota tem o coração transtor-nado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.
Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloqüência extraordinária, que tocaria o coração de uma estátua.
Ouçamos a sua triste história.
Aurélia tinha dezesseis anos - diz ela - quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinrid-ge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.
Com o consentimento de seus pais, fica-ram noivos, e durante um largo período tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgra-ça que sempre tocam à humanidade.
Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola, e da espécie mais virulenta e terrível. Quando ficou bom, tinho o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. Já não era o mesmo, porque a sua beleza desapa-recera para sempre.
Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma questão de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.
Acontece que na véspera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus, caiu, dis-traído, num poço, e quebrou uma perna. Tiveram de amputá-la acima do joelho.
Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela dei-xou que o tempo corresse.
Outra infelicidade aguardava o noivo cai-pora. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão, numa festa cívica. Ainda na convalescença. três me-ses depois, teve o outro esmagado numa pren-sa agrícola.
O coração da pobre Aurélia foi horrivel-mente machucado por essas verdadeiras cala-midades. Era enorme a sua aflição, por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pe-daço e imaginar que, com esse sistema de progressiva redação, com pouco nada mais restaria do rapaz. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele.
Em seu desespero, coitada, como um ne-gociante que teima num negócio e tem pre-juízo regularmente, todos os dias, Aurélia sen-tia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caru-thers. antes que ele sofresse tão alarmante de-preciação. Mas, encarando a situação com âni-mo firme, resolveu pôr à prova, ainda uma vez, as lamentáveis disposições do seu noivo.
Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos.
Os pais e os amigos da moça, tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.
Aurélia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, porém res-pondeu a todos que, refletindo direito sobre o assunto, verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo.
Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.
Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.
Aurélia sentiu uma emoção cruel, perce-bendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, so-bretudo, que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. Contudo, não atendeu aos rogos dos seus, quanto à anulação do seu compromisso, e só fez mesmo transferir o casamento.
Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgraça. Foi o seguinte: du-rante o ano, os índios de Owen River arran-caram o couro cabeludo de um só homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Ca-ruthers, de New Jersey.
Ainda assim, o pobre-diabo fez-se trans-portar imediatamente para a casa de sua noiva, o coração transbordante de alegria, embo-ra tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu graças a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse preço exorbitante.
A esta altura, Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo - é o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o coração, porém sua família se opõe terminantemente ao casamento.

quinta-feira, 1 de maio de 2008


Mal-estar de um anjo


Clarice Lispector


Ao sair do edifício, o inesperado me tomou. O que antes fora apenas chuva na vidraça, abafado de cortina e aconchego, era na rua a tempestade e a noite. Tudo isso se fizera enquanto eu descera pelo elevador? Dilúvio carioca, sem refúgio possível, Copacabana com água entrando pelas lojas rasas e fechadas, águas grossas de lama até o meio da perna, o pé tateando para encontrar calçadas invisíveis. Até movimento de maré já tinha, onde se juntasse o bastante de água começava a atuar a secreta influência da Lua: já havia fluxo e refluxo de maré. E o pior era o temor ancestral gravado na carne: estou sem abrigo, o mundo me expulsou para o próprio mundo, e eu que só caibo numa casa nunca mais terei casa na vida, esse vestido ensopado sou eu, os cabelos escorridos nunca secarão, e sei que não serei dos escolhidos para a Arca, pois já selecionaram o melhor casal de minha espécie.Pelas esquinas os carros de motor paralisado, e nem sombra de táxi. E a alegria feroz de vários homens finalmente impossibilitados de voltar para casa. A alegria demoníaca dos homens livres ainda mais ameaçava quem só queria casa própria. Andei sem rumo ruas e ruas, mais me arrastava que andava, parar é que era o perigo. De minha desmedida desolação eu só conseguia que ela fosse disfarçada. Alguém, radiante sob uma marquise, disse: que coragem, hein, dona! Não era coragem, era exatamente o medo. Porque tudo estava paralisado, eu que tenho medo do instante em que tudo pare tinha que andar.
E eis que nas águas vejo um táxi. Avançava cuidadosamente, quase centímetro por centímetro, tateando o chão com as rodas. Como é que eu me apoderaria daquele táxi? Aproximei-me. Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram. Contendo o desespero, o que sempre me dá uma aparência de força, disse ao chofer: "o senhor vai me levar para casa! é de noite! tenho filhos pequenos que devem estar assustados com minha demora, é de noite, ouviu?!" Para minha grande surpresa, vai o homem e simplesmente diz que sim. Ainda sem entender, entrei. O carro mal se movia nas ondas lamacentas, mas movia-se - e chegaria. Eu só pensava: eu não valho tanto. Daí a pouco já estava pensando: e eu que não sabia que valia tanto. E daí a pouco era a dona-de-casa de meu táxi, já tomara posse de direito do que gratuitamente me fora dado, e energicamente tomava medidas úteis: torcia cabelos e roupas, tirava os sapatos amolecidos, enxugava o rosto que mais parecia ter chorado. A verdade, sem pudor, é que eu tinha chorado. Muito pouco, e misturando motivos, mas chorado. Depois de arrumar minha casa, encostei-me bem confortável no que era meu, e de minha Arca assisti ao mundo acabar-se.
Uma senhora aproximou-se então do carro. Devagar como este avançava, ela pôde acompanhá-lo agarrada em aflição ao trinco da porta. E literalmente me implorava para compartilhar do táxi. Era tarde demais para mim, e seu itinerário me desviaria de meu caminho. Lembrei-me, porém, de meu desespero de havia cinco minutos, e resolvi que ela não teria o mesmo. Quando eu lhe disse que sim, seu tom de imploração imediatamente cessou, substituído por uma voz extremamente prática: "É, mas espere um pouco, vou até aquela transversal buscar na casa da costureira o embrulho do vestido que deixei lá para não molhar". "Estará ela se aproveitando de mim?", indaguei-me na velha dúvida se devo ou não deixar que se aproveitem de mim. Terminei cedendo. Ela demorou à vontade. E voltou com um enorme embrulho pousado nas mãos estendidas, como se até seu próprio corpo pudesse macular o vestido. Instalou-se totalmente, o que me deixou tímida na minha própria casa.
E começou o meu calvário de anjo - pois a mulher, com sua voz autoritária, já tinha começado a me chamar de anjo. Não poderia ser menos comovente o seu caso: aquela era a noite de uma première e, se não fosse eu, o vestido se estragaria na chuva ou ela se atrasaria e perderia a première. Eu já tivera as minhas premières, e nem as minhas me haviam comovido. "A senhora não sabe o milagre que me aconteceu", contou-me com firmeza. "Comecei a rezar na rua, a rezar ara que Deus me mandasse um anjo que me salvasse, fiz promessa de não comer quase nada amanhã. E Deus me mandou a senhora." Constrangida, remexi-me no banco. Eu era um anjo destinado a proteger premières? a ironia divina me encabulava. Mas a senhora, com toda a força de sua fé prática, e tratava-se de mulher forte, continuava impositivamente a reconhecer o anjo em mim, o que só pouquíssimas pessoas até hoje reconheceram, e sempre com a maior discrição. Tentei sem jeito a leveza de um sarcasmo: "Não me supervalorize, sou apenas um meio de transporte". Enquanto que a ela nem sequer ocorreu compreender-me, eu a contragosto percebia que o argumento na verdade não me isentava: anjos também são meios de transporte. Intimidada, calei-me. Fico muito impressionada com quem grita comigo: a mulher não gritava, mas claramente mandava em mim. Impossibilitada de confrontá-la, refugiei-me num doce cinismo: aquela senhora, que tratava com tanto vigor do próprio êxtase, devia ser mulher habituada a comprar com dinheiro, e na certa terminaria por agradecer ao anjo com um cheque, também levando em conta que a chuva já devia ter lavado toda a minha distinção. Com um pouco mais de confortável cinismo, em silêncio, declarei-lhe que dinheiro seria um meio tão legítimo como qualquer outro de agradecer, já que a moeda dela era mesmo moeda. Ou então - diverti-me eu - bem poderia dar-me em agradecimento o vestido da première, pois o que ela realmente deveria agradecer não era ter um vestido seco, e sim ter sido atingida pela graça, isto é, por mim. Dentro de um cinismo cada vez melhor, pensei: "Cada um tem o anjo que merece, veja que anjo lhe coube: estou cobiçando por pura curiosidade um vestido que nem sequer vi. Agora quero ver como é que sua alma vai se arrumar com a idéia de um anjo interessado em roupas". Parece-me que, no meu orgulho, eu não queria ter sido escolhida para servir de anjo à tolice ardente de uma senhora.
A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar. Conheço bem esse processo do mundo: chamam-me de bondosa, e pelo menos durante algum tempo fico atrapalhada para ser ruim. Comecei também a compreender como os anjos se chateiam: eles servem a tudo. Isso nunca me ocorrera. A menos que eu fosse um anjo muito embaixo na escala dos anjos. Quem sabe, até, eu era só aprendiz de anjo. A alegria satisfeitona daquela senhora começava a me deixar sombria: ela fizera uso exorbitante de mim. Fizera de minha natureza indecisa uma profissão definida, transformara minha espontaneidade em dever, acorrentava-me, a mim, que era anjo, o que a essa altura eu já não podia mais negar, mas anjo livre. Quem sabe, porém, eu só fora mandada ao mundo para aquele instante de utilidade. Era isso, pois, o que eu valia. No táxi, eu não era um anjo decaído: era um anjo que caía em si. Caí em mim e fechei a cara. Um pouco mais e teria dito àquela de quem eu era com tanta revolta o anjo da guarda: faça o obséquio de descer já e imediatamente deste táxi! Mas fiquei calada, agüentando o peso de minhas asas cada vez mais contritas pelo seu enorme embrulho. Ela, a minha protegida, continuava a falar bem de mim, ou melhor, de minha função. Emburrei. A senhora sentiu e calou-se um pouco desarvorada. Já na altura de Viveiros de Castro a hostilidade se declarara muda entre nós.
- Escute, disse-lhe eu de repente, pois minha espontaneidade é faca de dois gumes também para os outros, o táxi vai antes me deixar em casa e depois é que segue com a senhora.
- Mas, disse ela surpreendida e em começo de indignação, depois vou ter que dar uma volta enorme e vou me atrasar! é só um pequeno desvio para me deixar em casa!
- Pois é, respondi seca. Mas não posso entrar pelo desvio.
- Eu pago tudo! insultou-me ela com a mesma moeda com que teria se lembrado de me agradecer.
- Eu é que pago tudo, insultei-a.
Ao saltar do táxi, assim como quem não quer nada, tive o cuidado de esquecer no banco as minhas asas dobradas. Saltei com a profunda falta de educação que me tem salvo de abismos angelicais. Livre de asas, com a grande rabanada de uma cauda invisível e com a altivez que só tenho quando pára de chover, atravessei como uma rainha os largos umbrais do Edifício Visconde de Pelotas.


CLARICE LISPECTOR. Mal-estar de um anjo. In Para Não Esquecer. São Paulo, Ática, 1984

sexta-feira, 7 de março de 2008


O MUNDO IMPERCEPTÍVEL DE LUIZA

Elly Ramos

Puxa as persianas, e assim, pode ver os flamboyantes, o céu azul com suas nuvens brancas. O sol arde, forçando os seus olhos a fecharem. Bem ali, no quarto andar do velho prédio, um galho de flamboyant oscila na vidraça de sua janela, e lá entre as folhas de verde-claro e muitos buquês de flores de vários tons de vermelho, está um pardal a festejar a primavera. Ela debruça sobre o peitoril da janela e se perde, distanciando-se de tudo.
Ontem à noite na tv ouvi anunciando que nos EUA haviam dois jovens que morreram em um jardim zoológico; não lembro ao certo se foram mortos por uma onça, ou um tigre, ou... o certo é que foi um animal faminto e feroz. Feroz... ?! O homem é feroz? Talvez, talvez o mais... creio que seja o mais feroz dos animais. O homem! Esse ser pensante é capaz de matar por tudo e por nada. Eu mesma, Luiza, mato-me todos os dias. Hoje amanheci e tomei uma taça de veneno, antes de dormir repetirei a dose e em todos os momentos oportunos vou lá e me auto-enveneno.
O apartamento que Luiza morava era pequeno, com apenas cinco cômodos: dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Todas as janelas ficavam para o nascente, assim sendo, a temperatura alçava muito nos dias de primavera, e principalmente de verão. Além disso, ficava localizado à margem de uma via paralela. Naquela manhã, o apartamento estava calmo, as crianças na escola e o seu marido trabalhando. Como sempre quase não se encontravam.
Luiza era calada, serena, nunca perdia a calma com as crianças e muito carinhosa com o marido. Mas... estava sempre brigada consigo mesma. E, especialmente hoje, com um dia lindo, mas quente de quase queimar os miolos. Seus pensamentos não a deixavam em paz:
Os pássaros são felizes e cantam, mesmo nos dias quentes... Eu, olho para tudo isso e não me encontro, tenho tudo, assim dizem: “você tem um ótimo marido, filhos lindos...”. Bem, não sei se isso é tudo, mas também não sei o que quero. E esse vazio, esse vazio me consome. Não tenho medo da morte, mas, mas a vida me assusta. Vejo-a passar por esta janela, é como a água da pia que escorre entre os meus dedos. Acho... que é a beleza da vida que me encanta e me assusta como se eu não tivesse o direito de possui-la. É isso! Eu, sinto-me pequena, muito pequena diante da vida. Sou o ponto da interrogação em uma página em branco. E assim vou tecendo meus pensamentos, ingerindo minhas pequenas doses diárias do meu próprio veneno.
A campainha toca insistente e Luiza desperta do seu transe. Não havia mais o pardal em frente à janela. Ela sai calma como sempre, abre a porta, beija os filhos e pede para a empregada pôr a mesa do almoço. Logo depois brinca com as crianças, auxilia nos deveres, passeia com o cão toda sorridente; mas a noite cai, o sol se põe, as crianças dormem e ela vai para a janela ver a lua, as estrelas e tudo aquilo que tanto lhe encantam. Assim, vai se auto-envenenando e se deliciando... Por vezes, seus pensamentos voam sobre os verdes framboyantes. As flores agora já não têm os tons avermelhados, e sim, os amarelados, pois, foram banhadas pela luz do luar. Mas as horas passam. Luiza olha o playground: não há mais crianças, porém, alguns passantes enamorados. Olha para o estacionamento e lembra que não tardará a chegada do marido, então, corre para seu quarto desliga as luzes. E tudo é silêncio, até sua respiração é cadenciada... Talvez, talvez mesmo assim, Luiza se auto-envenene com os seus deliciosos sonhos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008


Amor


Clarice Lispector


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera. Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera. O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher. O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida. Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito. A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram. O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa. Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca. Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite. Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico. Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo. A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu. Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber. Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante. As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno. Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo. Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto. Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o. Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver. Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão. Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar. Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos. Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos. Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico. Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado. — O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago. — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela. — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.


[Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi]

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Tempo de coisas amadas



TEMPO

Wesley Barbosa Correia





Também o tempo desta cidade não é o outro tempo da cidade em que nasci. Naquela, o tempo se faz comum de tudo, todo avesso a este tempo daqui: assim cortado, raquítico, quase não sendo hora alguma, quase estrangulando o segundo. É só o instante de esperar para andar, começar a caminhar, parar de novo e assim recomeçar.
Aí o homem está:
como eu
quando nem quero ser.
Cidadezinha sim: pode-se pegar na contagem do ponteiro, pode-se até enjoar do tanto de tempo que se tem, pode-se arreliar de conhecer o tempo, pode sentar, fugir de si e depois se angustiar. Aqui, quase nada, homens ou objetos, jamais se angustia, nem a quentura dos pneus rolando na massa do petróleo, o pavor do capeta, essa mão do não que impede a mão, o pé, o joelho da gente.
O olho de vô foi capaz de paralisar o tempo. Ele recosta à parede esburacada. Cada buraco de bicho guarda um susto, um lamento, a cega conquista. Vô não se move, mas sente que a vida a sua volta é exatamente o que ele deseja. Vô é um conjunto de muitas vidas que vivem infinitas por dentro dele.
A vida são buracos na parede.
A vida suave, vulnerável – a vida. Eu olho o mistério que habita o quarto de vô. Ele quietinho, calado. Vô num vôo atemporal. Agora, só importam coisas que não se medem, figuras sem hora: tinha mato seco no quarto? tinha jaca doce? água de coco? tinha porco no quarto? Vô não conta o passo da galinha, entretanto infere o destino de cada pisada. Capaz que ele pense que várias pisadas de galinha na lama resultem em metafísica boba. Porque pensar em galinha, às vezes, é gratificante já que um dia, há muitos e muitos dias, um sábio solitário advertiu que apenas elas aprenderam a viver em paz neste mundo de meu deus.
Galinhas parecem cruéis e não passam de pura vagação.
Mais nada.
Qual?
Pensar em galinhas: no tempo curto e solitário que compassa seu coraçãozinho tão imenso ao nosso coração. Galinha é um bom motivo empírico, mas por vezes, enjoa buscar, entender e saber-lhe da felicidade nos pés tridentes.
Talvez seja melhor não pensar em quanto tempo o tempo leva para se gastar. Ou menos se se gasta. Ou menos se se sabe. Ou menos se demora, se passa ligeiro, se escorrega, se empaca. Mas sua razão de ser divino é que ele se transforma à proporção em que transforma nossos pretensos espíritos.
Por exemplo: para vô, o tempo é um vento calmo; para mim, a surpresa existencial reside na hora inesperada em que os sinais se fecham e os carros param; para a cidade em que nasci, ele é somente pura memória: tudo o quanto dói, esse olhar ao avesso – invasivo do corpo sem escudo, da carne sem pele.
Amanhã é algum tempo?
Hoje, o que resta de mim é também algum tempo indefinido. Criaram o tempo para ser claro como o estado das leis de Montesquieu? Ou criaram-no para ser como a noite em que a menina escreve os versos eternos?
Seremos a antológica criatura de um deus Tempo que nos zomba e confunde a todos? Um dia pensei que o mundo de imagens vãs - originário dos textos que li – fosse pura casualidade, mas hoje, alguém superficial e quase inexistente, com grande exatidão, lembrou-me que, ao contrário, o mundo me fez a voz que sou, sem a qual não seria nada, voz sedutora das dissipações.
Daqui a tempos, no tempo ardiloso desta narrativa, a cidade será, vô e as galinhas serão a exata matéria de tudo o que desejarem, nós – tu e eu – seremos um. Finalmente.