quinta-feira, 1 de agosto de 2013


Instantes
                                                                                                                                               Elly Ramos


De certa distância, lá estava esticada sobre o capô do velho automóvel, parado propositadamente à beira-mar, olhou preguiçosa para as ondas que batiam e voltavam a trazer suaves espumas, olhou para o senhor e duas crianças a brincar sorridentes, felizes. Fechou os olhos, largou os braços em direção à cabeça e deixou-os deslizar, dementes, a quase ficar pendurados para fora do capô vermelho e as pernas acompanhavam os movimentos, largadas ficaram totalmente feito pêndulo. Ainda com as pálpebras fechadas, movimentou a cabeça de modo indubitável, esqueceu-se de sua própria presença, entregou-se ao nada e já não sentia seus membros, era como se fosse um balão, ou uma boneca inflável e sem ar, talvez. Permaneceu assim: ao nada, sem ser nada, até uma pena de pássaro pesaria mais do que aquele corpo inerte. Ah, e se alguém a olhasse só veria, apenas, os movimentos indescritíveis das finíssimas penugens do seu copo que o vento ousava acaricia-las com o sopro frio do fim de verão, mas quem teria este olhar tão miraculoso? Não interessa, na certa seria o olhar invisível, magnífico. E, o nada se tornou escuro, escuro e escuro. Transcendeu os mundos, perduraram alguns minutos... sem sentido. Não percebeu o céu nublado, nem a pipa que o ventos rasgara no espaço, nem mesmo as gotículas miúda que chovia e molhava seu corpo imóvel, mas uma voz, uma voz ativa e amável de uma criança a trouxera à beira-mar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013


Imagem: Pedro Rocha Nogueira 

Sonho
Elly Ramos

O lugar era escuro como a noite ou era noite, ela não sabia. Estava sentada ao seu lado outra pessoa, não a conhecia. Estavam no acostamento de uma pista movimentada. Por um instante, ao ver um ônibus, deitou o seu corpo, vagarosamente na cama negra e ainda quente, em direção à luz que ofuscava os seus olhos. Mas, recolheu rapidamente quando viu as ferragens e os grandes pneus do gigante que se aproximava. Voltou a sentar. Serenamente permaneceu a olhar a paisagem de um verde escuro que contracenava com o asfalto. Tudo mudava rapidamente. As cenas pareciam fleches, cliques acelerados de câmara fotográfica. Já não estava lá. Como o virar de uma página, voltou à casa da fazenda de seus pais onde passou toda a sua infância. Assim estava ela em cima da mesa quadrada da sala de jantar. Incrível como se equilibrava com a mesa inclinada e com os dois pés esquerdos da mesa suspensos. Como esta estava próxima da janela, a garota segurava o arame farpado que servia como varal de roupas no beiral da casa, permanecendo com a metade do corpo na parte interna e a outra metade na parte externa da casa através da janela. Os pés impulsionavam, fazendo com que balançasse para dentro e para fora. Suas mãos muito brancas a segurar firme o varal. Os olhos fixos a olhar anjo e demônio beijando-se e com os corpos inclinados quase a encostarem ao chão, pareciam estátuas de mármore: Vênus e Pã na terra dos mortais, em terreno lamacento, naquela paisagem escura no meio de sons de bichos domésticos. Logo a cena deixa o espaço, na mesma velocidade do balaço do corpo da garota entre a mesa e o arrame farpado, e o que vê agora é um rio de águas sujas que separa o passeio da casa, da mata escura e perdida em seus pensamentos. Com o olhar quase de transe, observa uma cobra a cair de uma das árvores. Ouve o som das folhas e dos caules a oscilarem com o corpo anelado que mais parecia içar voo, voo para baixo que logo alcança a terra e faz um barulho maior. Neste instante tênue, tudo parece parar por um segundo de atenção, cautela. Até a galinha levanta a cabeça e sai cocoricando assustada. A garota desce ligeira da mesa e corre em direção à porta aberta da cozinha a gritar, a gritar. Mas, parece que ninguém a ouve.  Estão todos em casa e ninguém a ouve. “Vem uma cobra em direção a casa, a mim...!!!”  Vê a cobra atravessar o rio imundo com o corpo imerso a fazer ondas naquelas águas e a mostrar apenas a cabeça. Serpenteando rapidamente o seu corpo entre pedras e lama, alcançando a porta. Avança sua mandíbula na mão esquerda da menina que momentos antes tão firmes seguravam o varal farpado. É tomada por uma grande dor e desespero. Encontra coragem não sabe de onde, para com a outra mão apunhalá-la na cabeça. A cobra contorce o corpo e, em forma de bote, abre mais a presa e mais uma picada, mais outra. A garota a apunhala mais e mais até ver o sangue da serpente escorrer e se misturar ao seu. A cabeça já mutilada, só bem visível os dentes afiados e brancos. Mesmo assim, ela grita a pedir a sua mãe um copo que estava próximo dela sobre a mesa, em seu desespero continuamente de livra-se daquele bicho asqueroso. Em certo momento, sai dali com a mão machucada, achando possível o seu fim. Andando, parecendo arrastar o seu corpo, atravessa a sala e vai até um dos quartos. Aquele perto do banheiro. E cai no piso de tijolos crus, próximo à cama. Não sabe como se levantou. Dirigiu-se ao outro quarto onde encontra sua mãe saindo de dentro do quarto que era seu, e o seu pai, meio agitado a consertar a bermuda um pouco grande para o seu corpo magro. Há anos morrera. Estava ali sorrindo, ajeitando-se. Ambos felizes. Parecia que acabavam de fazer sexo e estavam satisfeitos. Mas no quarto havia água, como se houvesse uma ducha que esqueceram de desligar. Tudo transmudava rapidamente em seu sonho. Ao acordar, depara-se com o seu cotidiano, também miserável. 

quarta-feira, 6 de março de 2013



                                         Elly Ramos
O hóspede 

Chegou calado com uma pasta negra no peito, apertada entre os braços. Pediu a chave do quarto 413 para a recepcionista. Ela o olhou ao entregar-lhe a chave, ele nem percebeu, saiu rápido com passos firmes e de cabeça ereta a resmungar palavras inaudíveis. Deu preferência à escada, abolindo assim, o elevador. Abriu a porta do 413, entrou sem olhar para o interior do quarto e sem desgrudar da pasta, sentou-se na cadeira ao lado da cama, juntou as pernas uma na outra apertando-as  até sentir dor... Afastou-as e sorriu. Levantou-se, olhou ao redou, colocou a pasta em cima da cama, foi até a janela, viu a noite movimentada, luzes oscilando: faróis, postes e toda a vida urbana; pessoas que não paravam de andar. Olhou para o pulso, o relógio marcava 22:31 horas. O celular vibra em um dos bolsos da calça. Falou para si: “não vou atender” deixou chamar até parar. Olha a pasta preta em cima da cama e ao aproxima-se, esfregou uma mão na outra, sorriu e foi ao banheiro. Olha-se ao espelho, vê o seu cabelo grisalho, algumas rugas no rosto e nos olhos a inquietude que a vida o proporcionou. Lavou o rosto e voltou. Olhou a pasta mais uma vez, sentou-se na cama resolvido a abri-la. Ao tocar no fecho, seus dedos estão trêmulos. Ele abre e tira o terço e começou a desfiar conta por conta entre os dedos. Os lábios se moviam rapidamente em murmúrio como se o contar retrocedesse o tempo. Viu-se ainda menino, andando atrás de uma garotinha saindo. Viu sua primeira transa. Viu toda sua vida entre os dedos ágeis e as contas. Automaticamente desabotoou a camisa e pôs-se a esfregar o terço em seu peito, por todo o seu corpo, correu por dentro das calças e quase a machucar-se. Sorriu com um olhar prazeroso. Sorriu, fechou os olhos absorvido pelo êxtase. Virou-se e no rosto másculo os lábios finos convulsos, moviam-se de dor, mas engoliu o  líquido salgado  provocado pelo prazer. Soltou o terço, foi ao banheiro, ligou a ducha fria e ficou parado a deixar, em abundância, a água percorrer por todo o seu corpo. Era quase manhã. O sol já despontava na janela. Pensou: “Há seis anos a quero com desespero e nunca fui correspondido, e nem podia ser. Estava linda naquele vestido e no decote o brilho dourado.” Mas no início da noite anterior, casou-se com o Pedro, o seu único filho. Assistiu a cerimônia religiosa. Não teve coragem de vê-los brindar. Lembrou-se daquela noite em que viu os corpos nus entrelaçados em sua própria cama. Olhou-os da porta que haviam deixado entre aberta. “Sussurrou: Maria, Maria, Maria...” Pegou a toalha e enrolou-a na cintura. Voltou para o quarto, olhou o terço e pensou “divinos e mortos são os que amam. Loucos os que desejam demais.” Vestiu-se e colocou o terço de volta. Sentiu fome e ligou para o serviço de quarto. A pasta estava aberta sobre a cama entre os lençóis. Ele olha para ela, um olhar carinhoso. Passa a mão no rosto e sente a barba mal feita, precisa corrigir isso. Entra no banheiro e procura na gaveta a lâmina. Estava tão absorvido que não ouviu a batida. Ao virar em direção à porta, a lâmina fere seu rosto. Vem à sua lembrança o sangue que escorria do joelho dela. Sempre a via no parque, quando fazia caminhadas. Naquele dia ela caíra da bicicleta e ele se aproximou para socorrê-la. Ao inclinar-se para ela, seus olhos foram atraídos.... Ele abre a porta, mal-humorado. A camareira entra com seu café. Nesse momento percebe a mala e lança para ela um olhar curioso, o que o deixa irritado. Deseja puxá-la pelo braço e apressar sua saída, mas o celular volta a tocar neste instante e tira sua atenção. Não atende. A presença dela o incomoda. A moça deixa a bandeja na mesinha ao lado da cama e ao inclinar-se pende do seu colo o brilho. Ele se apressa em detê-la, mas ela já vai saindo pela porta. Sua respiração ofegante e seu olhar fixo... Ele fecha porta e com a testa encostada nela transpira. Enquanto a pasta preta, aberta em cima da cama, guarda sua preciosa coleção: correntinhas com crucifixos e terços.
   

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Charles Baudelaire



Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?"Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!


Charles Baudelaire

Existem naturezas puramente contemplativas e totalmente impróprias para a ação, que, no entanto,sob uma impulsão misteriosa e desconhecida, agem às vezes com uma rapidez de que elas próprias se julgariam incapazes.
Como aquele que, temendo encontrar com o zelador uma notícia aflitiva, ronda covardemente durante uma hora frente à porta da casa sem ousar entrar, como aquele que guarda durante quinze dias uma carta sem abri-la, ou só ao fim de seis meses se conforma em efetuar um empreendimento necessário desde um ano, elas se sentem às vezes bruscamente precipitadas para a ação por uma força irresistível, como a flecha de um arco. O moralista e o médico, que afirmam saber de tudo, não podem explicar de onde vem tão de súbito uma louca energia nessas almas preguiçosas e voluptuosas, e como é que elas, incapazes de cumprir as coisas mais simples e mais necessárias, encontram em dado momento uma coragem de luxo para executar os atos mais absurdos e até, muitas vezes, os mais perigosos.
Um dos meus amigos, o mais inofensivo sonhador que já existiu, ateou fogo uma vez numa floresta, para ver, dizia, se o fogo pegava com tal facilidade como se afirma comumente. Dez vezes consecutivas a experiência falhou; mas, na décima primeira, foi por demais bem sucedida.
Outro irá acender um charuto ao lado de um barril de pólvora, para ver, para saber, para tentar o destino, para se forçar a si mesmo a dar provas de energia, para se fazer de jogador, para conhecer os prazeres da ansiedade, por nada, por capricho, por desocupação.
É uma espécie de energia que jorra do tédio e do devaneio; e aqueles nos quais ela se manifesta tão inopinadamente são, geralmente, como eu disse, os mais indolentes e sonhadores dos seres.
Outro, tímido a ponto de abaixar os olhos mesmo diante dos olhares dos homens, a ponto de ser-lhe preciso ajuntar toda a sua pobre vontade para entrar num bar ou passar diante de uma bilheteria de teatro, onde os fiscais lhe parecem investidos da majestade de Minos, Éaco e Radamanto, se jogará bruscamente nos braços de um ancião que estiver passando ao seu lado, e o beijará com entusiasmo diante da multidão espantada.
Por quê? Porque… porque essa fisionomia lhe era irresistivelmente simpática? Talvez; mais é mais legítimo supor que ele próprio não saiba por quê.
Fui vítima, mais uma vez, dessas crises e desses impulsos, que nos autorizam a crer que Demônios maliciosos se insinuam dentro de nós e nos fazem cumprir, à revelia, suas mais absurdas vontades.
Certa manhã, eu me levantara aborrecido, triste, cansado de ociosidade e levado, me parecia, a fazer algo, grande, uma ação de brilho; e abri a janela, infelizmente!
(Queiram observar, por favor, que o espírito de mistificação, que em certas pessoas não é resultado de um trabalho ou de uma combinação, mas de uma inspiração fortuita, tem parte, muito, mesmo que apenas ardor do desejo, neste humor, histérico segundo os médicos, satânico segundo aqueles que pensam um pouco melhor do que os médicos, que nos empurra sem resistência para uma série de ações perigosas ou inconvenientes.)
A primeira pessoa que avistei na rua foi um vidraceiro cujo grito penetrante, dissonante, me veio através da pesada e suja atmosfera parisiense.
Me seria, aliás, impossível dizer por que fui tomado, em relação a esse pobre homem, de um ódio tão repentino quanto despótico.
“Ei, ei” e eu lhe gritei que subisse.
Entretanto eu refletia, não sem certa alegria, que o quarto encontrando-se no sexto andar e sendo a escada bastante estreita, o homem deveria estar experimentando certa dificuldade em efetuar sua ascensão, e esbarrando em diversos lugares os ângulos de sua frágil mercadoria.
Ele enfim apareceu: examinei com curiosidade todas as suas vidraças, e lhe disse: “Mas como?Você não tem vidros coloridos? Vidros cor-de-rosa, vermelhos, azuis, vidros mágicos, vidros de paraíso? Que atrevido é você! Ousa passear pelos bairros pobres e nem mesmo possui vidros que tornem a vida bela de ser ver!”
E o empurrei com vivacidade para a escada na qual tropeçou resmungando. Aproximei-me da sacada e agarrei um vasinho de flores e, quando o homem reapareceu no vão da porta, deixei cair perpendicularmente meu engenho de guerra na borda traseira de suas forquilhas; e derrubado pelo choque, ele acabou de destroçar sob suas costas toda a sua pobre fortuna inconstante, que produziu o ruído estrondoso de um palácio de cristal atingido por um raio.
E, embriagado por minha loucura, gritei-lhe furiosamente:
“A vida bela de se ver! A vida bela de se ver!”
Essas brincadeiras nervosas não são isentas de perigo, e pode-se às vezes pagar caro por elas. Mas o que importa a eternidade da danação a quem encontrou num segundo o infinito da fruição?

segunda-feira, 29 de junho de 2009


O Dominó preto

Florbela Espanca


Havia já mais de oito anos que andava atrás dela. E só agora conseguira que ela se resolvesse a ouvi-lo. Há tantos anos, santo Deus! Ainda ele estava moço na mercearia da Rua dos Olivais, ainda nem sonhava que lhe haviam de dar sociedade na casa, nem tinha amealhado os seis contos de réis que tinha agora na Caixa Geral de Depósitos, já gostava dela, já gostava de a ver passar, pisando no seu passinho grácil e desenvolto a calçada de pedras pontiagudas. Os gritinhos que ela dava quando punha o pé em falso, o pé de boneca calçado de sapatinhos de verniz com saltos de palmo e meio! E quando entrava na loja! O cubículo escuro, sujo, feio, era de repente um grande salão feérico todo cheio de luzes, deslumbrante de asseio, bonito como nenhum. O pobre caixeirito, de mãos deformadas pelas frieiras, de larga cara bonacheirona e ingénua, ridículo no seu fato de cotim da mangas curtas, de cabeleira encrespada e sobrancelhas hirsutas, ficava a olhar para ela, esquecido do que lhe haviam pedido, vendo apenas na sua frente a boca fresca e os olhos gaiatos da rapariguinha risonha que, sem piedade, troçava dele constantemente. Mas que lindo riso o dela! Muito aberto, muito sonoro, enchia a casa de trilos de pássaros, mostrava-lhe os dentes todos muito sãos, muito brancos, e toda branca por dentro, muito cor-de-rosa como a polpa carnuda e sumarenta dum morango acabado de colher numa manhã de Primavera.
No banco da avenida, sob a acácia já cheinha de folhas, noite escura, o Joaquim entretinha-se a passar religiosamente as contas do seu rosário de recordações dos longos anos que passara atrás dela, inutilmente, mendigando sem se cansar um bocadinho de amor que matasse a fome e a sede ao seu corpo de adolescente casto que nunca se atrevera a seguir uma mulher pelas ruas escusas, pelos cantos misteriosos, quando a cidade cúmplice fecha os olhos e finge que dorme.
Sempre gostara daquela, daquela só, e um dia – já lá iam dois anos! – enchera-se de coragem e dissera-lho. A gargalhada que ela lhe dera na cara! Tinha-a Aida nos ouvidos, aquela divertida e escarnecedora gargalhada que lhe fizera chegar as lágrimas aos olhos.
Ele era um pobre diabo, mas queria-a, queria-a como sabem querer os rústicos das suas montanhas, queria-a como todo o ardor dos seus vinte anos, cheios de seiva como um chaparro novo, queria ganhá-la custasse o que custasse, embora tivesse de andar de rastos atrás dela a vida inteira. Tinha tempo! E assim fez: trabalhou sem descanso e sem desalento meses e meses, todos os dias do ano, quer de Inverno quer de Verão, mal luzia o Sol no alto até noite fechada, sem domingos nem dias santos. Mal pago e mal alimentado, mourejou e fez vontades, foi servo de toda a gente, com a tenaz ideia fixa encasquetada a martelo no estúpido bestunto, sem querer saber de mais nada, não dando conta do que ia pelo mundo, do que se passava para além do encardido balcão de pinho, aonde lhe ia correndo a mocidade, agrilhoado ao trabalho como um escravo.
O patrão, com o andar dos tempos deu finalmente por ele, observou-o, e um belo dia, deitando contas ao lucro que podia tirar duma bela acção, mandou-o ensinar a ler. À noite, depois da loja varrida e tudo arrumado, que o patrão não se ensaiava para lhe pregar dois murros bem puxados, o rapazito descia os dois degraus que fazia comunicar a lojeca com a húmida toca onde dormia. Ah, se as paredes pudessem falar! Um coto de vela a arder sobre a única cadeira de pau e, sentado na cama de tábuas, as mãos crispadas nos cabelos rijos, cabelos de fome, a cabeça tonta, doido de sono, o pobre lá ia decifrando as letras, soletrando, juntando as sílabas, estudando a lição para o outro dia, à custa de esforços desesperados e duma força de vontade que nenhuma força poderia vencer. Quando compreendia, a larga cara bonacheirona iluminava-se-lhe num sorriso que, entre aquelas quatro paredes, onde as aranhas teciam tranquilamente as suas teias de seda e prata fosca, era por si só um belo milagre de amor! O manancial de águas claras que na planície vai matar sedes e reverdecer os campos, jorra do seio das duras pedras das montanhas em sítios agrestes, longe e alto!
Uma noite, ao estudar a lição, deu com o nome dela: “Maria”. Soletrou-lhe as duas sílabas, de olhos arregalados, boca aberta, num êxtase, e os grossos lábios, subitamente, sem ele saber como, foram pousar-lhe no livro roto e cheio de nódoas, sobre as sílabas mágicas, enquanto as lágrimas lhe saltavam dos olhos e os soluços lhe enchiam o peito. Esteve mais de meia hora a soletrar-lhe o nome: “Ma-ria”, a olhar para as letras, sinais cabalísticos que queriam dizer tudo o que ele tinha para dizer, traços que faziam surgir, como varinhas de condão, um mundo de coisas boas, de coisas que ele nem sabia porque eram tão lindas e tão boas!
E assim foram passando os anos. A pouco e pouco foi subindo, juntando dinheiro, à custa de se privar de tudo, de economias insensatas, ia-se matando; mas conseguira juntar os seis contos de réis, que tinha na Caixa, que eram bem dele, só dele, e alcançar sociedade na casa, sociedade que também lhe dava um lucrozinho certo que não era nada para desdenhar…
E o Joaquim ria-se baixinho com um riso feliz, no seu banco da avenida, debaixo da acácia já cheinha de folhas, onde os pardais dormiam muito encostadinhos uns aos outros por causa do frio. Já tinha com que pôr a casa, um quarto ou quinto andar numa casinha acabada de construir, numa rua sossegada e limpa, que ele tinha já debaixo de o lho, ali para os lados do rio. E não ficava muito longe da mercearia… poderia ir e vir todos os dias a pé, para poupar o dinheiro do eléctrico… Uma mobília de quarto, de guarda-vestidos com portas de espelho… um aparador de pedra mármore… cadeiras de palhinha e um canapé para a sala… uma casa de luxo sólido, de coisas boas, que ele tinha dinheiro e não se importava de o gastar todo. Para a vida, lá se iria ganhando, e nunca haveria de faltar à Maria: o casaco de pelúcia, o seu vestidinho de seda de vez em quando e os sapatos de verniz para sair à rua… Nada! Que ele não a queria ver feita uma pobretona, de xale pelas costas e lenço na cabeça. Havia de ser uma senhora, mais linda e mais bem posta que algumas feitas à pressa que ele via por essas ruas, a fingir que eram grande coisa… A sua Maria havia de ter tudo o que ela quisesse e, para começo, já amanhã lhe iria comprar aqueles brincos compridos de pedras azuis que tinha visto na ourivesaria ao lado e que tão bem deviam ficar-lhe, a baloiçarem-se na pontinha rosada da orelha, naquele gesto que ela fazia com tanta graça, a dizer que “não” e “não”, a marota! Sempre, a todos os seus rogos, a todas as suas promessas, a tudo o que fizera para a captar, para a seduzir de há oito anos até… até ontem, Ah, ontem!
E o Joaquim via na noite escura brilhos de lua cheia, escancarava a boca até às orelhas num largo riso silencioso. Ontem!... E o Joaquim fechava os olhos esverdeados que luziam como os de um gato bravo no ardor do desejo, no triunfo de a sentir finalmente conquistada, finalmente muito sua, depois de tantos torvos anos de miséria e de angústia, depois de por ela ter passado fome e frio, depois de a ter querido como sabem querer as almas simples e rudes, na persistência da ideia fixa, invencível e tenaz, encaixada no cérebro branco como silva agarradiça de moita brava.
Ontem!... E o Joaquim via a rua mal iluminada do bairro pobre, a gente que passava afadigada, carregada de embrulhos, gente do povo, gente humilde de volta a casa depois de um dia de fadiga, os eléctricos cheios, num grande ruído de ferragens, tim, tim.. tim, tim... Ladeira abaixo; via-a a ela, onde luzia o ouro duma medalhinha de Nossa Senhora da Conceição; ouvia-lhe o riso garoto cheio de reticências, evocador de carícias proibidas e desejadas, o riso que às vezes lhe fazia vir à ideia coisas em que seria melhor não pensar.
Pobre rapariga! Ia agora fazer caso das coisas que lhe diziam! Não tinha sido nem uma nem duas vezes que lhe tinham dito mal dela; as referências que lhe faziam não eram nada boas, lá isso não! Que não era séria, que não tinha mesmo juizinho nenhum, que o não queria a ele, mas que talvez quisesse outros, que andava metida com gente de teatro, que mais isto e mais aquilo, enfim, um ror de coisas que às vezes o entristeciam. Nada tinham poupado para lhe fazerem perder aquela cisma, para o arredarem daquele fado em que o viam andar há anos, mas tudo tinha sido em vão. Podia lá acreditar uma coisa daquelas! Mentiras! Más palavras de má gente! Invejas!... E o Joaquim cerrava os punhos num gesto de rancor. A sua vontade era esganar toda aquela gente que dizia mal dela, cortar-lhes a língua aos bocados como a blasfemos sem honra nem vergonha que se atreviam a pôr a boca numa órfã honesta e trabalhadora. Costurava para o teatro, era verdade, e então? É por acaso algum crime trabalhar, ganhar a sua vida, a triste côdea e o direito duma telha que a abrigasse do frio e da chuva?! Gente mais ruim!...
Mas agora, no banco da avenida, deitando para trás das costas os maus pensamentos, o Joaquim era feliz, era amado, estava à espera dela, que tinha prometido vir: “Às dez horas lá estarei, no primeiro banco à direita de quem sobe, um pouco acima do Avenida, lá estarei, espere por mim, sem falta.”
Logo ao anoitecer fora para lá, não fosse a ela dar-lhe na cabeça ir mais cedo ou ele ter ouvido mal. Talvez ela tivesse dito às oito horas, já não se lembrava bem, Ele estava como doido! Não era admiração nenhuma ter trocado as horas, ter-se enganado. Ah, ontem!... Sabia ele lá bem de que freguesia era, ao ouvir-lhe dizer, pela primeira vez na sua vida, que sim, que iria falar com ele, combinarem a sua vida, trocarem as suas promessas, falarem de amor. De amor!...
Numa tremura, como se estivesse com uma forte sezão, tacteou o banco onde ela, dali a pouco, se sentaria ao lado dele, mãos nas mãos, olhos nos olhos. A sua Maria! Os pensamentos do seu cérebro zumbiam como abelhas ao sol; não podia seguir o fio de nenhuma ideia; era como se tivesse dentro da cabeça um novelo de fio de ouro, emaranhado, num torvelinho, num rodopio, enrolando-se e desenrolando-se, bordando vertiginosamente visões de sonho, demasiado belas, demasiado douradas para que os seus pobres olhos de simples as pudessem ver sem ficar deslumbrados. Pobre morcego de olhos piscos no resplendor dum meio-dia a arder em sol!
Mas já deviam ser horas. É verdade, que horas seriam? Esteve para ali amodorrado, a falar sozinho, sem prestar atenção a coisa alguma, em ricos de ela passar e não a ver. Tacteou no bolso do colete o grande relógio de prata. Ao puxar por ele, para ver as horas, as mãos enrodilharam-se-lhe no dominó preto que vestia. Sorriu, satisfeito. Mais um capricho do demónio da rapariga, que era levadinha da breca! De que ela se havia de lembrar? Como era Terça-Feira Gorda...
“Leve um dominó preto, com um laço azul no ombro, para o conhecer. Havemos de nos divertir muito!” E ele fizera-lhe a vontade, pois é claro! Mirou-se complacentemente de alto a baixo: o dominó de setineta preta que lhe chegava quase aos pés, comprido como sotaina de clérigo, o farfalhudo laço de seda azul sobre o ombro... Tal qual ela havia dito...
O Joaquim ria, mas, ao ver as horas, o sorriso gelou-se-lhe repentinamente nos lábios. Teve um sobressalto como de quem acorda com um encontrão. Dez horas e meia! Que estaria ela a fazer que não chegava? Já teria passado? Enquanto estivera para ali a cismar, era capaz de ter passado por ele sem ter dado por isso. Murmurou aflito: valha-me Deus! Levantou-se, lançou em torno um olhar esgazeado. Na avenida, a fila ininterrupta dos autos continuava a desenrolar-se. À porta do Avenida, estacionava ainda um grupo palrador; gente corria à sua vida, aos seus prazeres, ao seu destino; duas mulheres passaram por ele numa grande algazarra, rindo muito, fazendo grandes gestos. Pensativo, contornou o maciço de flores vagarosamente, deu mais uns passos para cima, mas, lembrando-se de repente de que ela podia chegar e ir-se embora sem o ver, voltou a correr para o banco.
Mas, afinal, que tolice estar assim a afligir-se por uma demora de meia hora! A rapariga era séria, que diabo Não ia agora duvidar dela, da sua boa fé! O dito, dito. Era ter paciência! Isto de mulheres, nunca estão prontas a horas, é mais um alfinete para aqui, mais uma besuntadela para acolá, mais um laço, mais uma fita... E para largarem o espelho é o cabo dos trabalhos!... E, à doce visão da sua Maria a enfeitar-se para ele, a ver-se ao espelho para lhe parecer bonita a ele, o coração dilatou-se-lhe num suspiro de consolo, e um sorriso radioso entreabriu-lhe novamente os lábios que o sofrimento contraíra.
Agitou-se no banco, envolveu-se melhor no dominó, que a noite ia-se pondo fria, e resolveu esperar com resignação. Passou, porém, uma hora, duas, e ela sem aparecer... A inquietação mordeu-lhe novamente a alma... Porque não viria? Onde estaria àquelas horas da noite?...
Continuavam a passar autos, continuava a passar gente, e ela nada! Nem sombras dela sequer!... Ele bem olhava para todos os lados, bem perscrutava, de olhos muito abertos, as trevas lá no fundo, por onde ela havia de vir. Nada!...
As luzes do Avenida cegavam-no, fechava os olhos para as não ver. A inquietação, a angústia, a mortal aflição dos que esperam sem esperança corroíam-no lá por dentro como chumbo derretido. E o pobre, no meio da multidão folgazã duma noite de Entrudo, tremia como se estivesse num deserto sem vivalma, sem gota de água ou folha de palmeira povoando a imensidade desolada e tétrica, até aos confins do horizonte, até ao fim do mundo!
O polícia de giro, adivinhando do que se tratava, deu uma volta em redor do banco e seguiu, sem lhe dirigir a palavra. Um perdigueiro novo, preto como azeviche, veio rebolar-se na relva a dois passos dele, dando latidos de alegria por se ver solto. Filho-família com tinetas de boémio conseguiu, com as suas cabriolas, arrancá-lo por um instante aos seus lancinantes pensamentos. Estendeu a mão para o acariciar, mas o cãozito, esquivo e desconfiado, fugiu-lhe e perdeu-se nas pesadas sombras duma rua ao lado.
Que horas seriam?... Viu outra vez o relógio: três horas! Ela já não vinha! Era impossível!... Que estava ele ali a fazer naquele maldito banco, sozinho?... Num supremo esforço de toda a sua vontade, retesou os músculos, levantou-se. Um homem que ia a passar recuou assustado, ao ver de súbito na sua frente aquele fantasma negro; depois de passar, olhou ainda para trás, curioso. O polícia de serviço, que já não era o mesmo, perguntou-lhe desabridamente o que estava ali a fazer, há que tempos, naquele banco. Num humilde sorriso, que mais parecia um esgar de choro, respondeu-lhe, esforçando-se por dar ao seu todo um ar pândego, que estava à espera duma rapariga para irem cear, para festejarem a Terça-Feira Gorda... O polícia, satisfeito com a explicação, piscou o olho, indulgente, e seguiu à sua vida. Ele tornou a sentar-se. Podia ser, podia muito bem ser que ela viesse ainda. Ainda não era tarde! Podia ter adoecido... Mas a estes enganos com que pretendia iludir-se, o pobre coração, que era como uma chaga em sangue dentro do seu peito, revoltava-se num sobressalto das suas últimas energias, numa náusea de nojo perante a perfídia imerecida. Ah, Maria, Maria!
Era então verdade todo o mal que diziam dela, todo o mal que lhe tinham dito! Sem vergonha, sem juízo, sem consciência, passava a vida a desgraçar homens, a desgraçada! Mas então a sua casinha, a sua casinha nova na rua limpa e sossegada, as suas economias, todos os seus sonhos, toda a sua vida?! Que seria feito daquilo tudo, santo deus?! Ah, a mentira, a ilusão de todos esses miseráveis anos que tinham passado, o escárnio de engano que tinha sido o ar que respirara, o pão que comera a viver para ela, a trabalhar para ela, a sofrer por ela! Não a teria nunca, nunca! Não lhe saberia nunca o gosto à boca, àquela boca de tentação, vermelha e húmida, como um cravo a abrir!
Soluços violentos faziam-lhe estalar o peito, a emoção apertava-lhe a garganta em tenazes de ferro, caíam-lhe lágrimas em fio pela cara abaixo. Na sua grotesca humildade era um espantalho desprezível. Mascarado, ridículo, lavado em lágrimas, era mais infeliz que as pedras e dava vontade de rir!
Quatro horas! O riso dela, rio cheio de reticências, riso canalha e escarninho, fustigou-o como uma chicotada na cabeça, ao evocá-lo. Tinha feito pouco dele! Nunca fizera tensões de vir! Onde estaria ela?... Ah, Maria, Maria!...
Num arranco, apalpou no bolso das calças, com a mão crispada, o canivete que trazia sempre; de olhos fechados, a boca torcida num ricto odioso, abriu-o e, num gesto de doido, enterrou fundo no pulso a estreita lâmina afiada. O sangue jorrou como um repuxo e salpicou-lhe os dedos. Sem pensamentos, a cabeça a fugir-lhe, tonto, desvairado, soltou um grito rouco, abafado como um rugido de fera ferida, dobrou-se sobre si mesmo como um fantoche e, de olhos muito abertos, ficou-se a contemplar, num ar pasmado, o sangue a correr-lhe pela mão, em grossos traços negros até ao chão.
Para as bandas do oriente o céu tomava uns vagos tons de nácar. O perdigueiro boémio, cansado de folgar, veio a passos lentos para ele, cheio de gravidade, desconfiado, farejando de longe o sangue. Os pardais, aconchegados na acácia que a Primavera enchera já de folhas tenras, começavam a mexer-se e a pipiar docemente.
O Joaquim quis levantar-se, mas não pôde, quis abrir os olhos, não teve forças. Um grande bem-estar invadia-lhe o corpo todo, um estranho entorpecimento tornava-lhe as pernas e os braços moles como trapos. A cabeça pendeu-lhe paras as costas do banco. O sangue continuava a correr pelo braço, pela sotaina negra, num ténue fiozinho tépido.
De repente, aos ouvidos do moribundo chegou vagamente, como num sonho, um ruído de passos. Fez um grande esforço para se endireitar, para pensar: Seria ela?... Os passos aproximavam-se... Nas primeiras claridades ainda indecisas da madrugada adivinhou-se um grupo de homens e mulheres vestidos de dominós pretos. Vinham conversando e rindo animadamente, de volta de um baile, talvez...
Ao passar por ele, uma das mulheres exclamou:
- Olha aquele no banco, parece um faz-tudo.
- Está bêbado – disse a outra.
E uma gargalhada estridente acordou a manhã como um gorjeio de pássaro. Ao ouvir aquele riso que se afastava, o agonizante, no seu banco, estremeceu. Num medonho esforço conseguiu desembaraçar-se da mortalha que o envolvia já, conseguiu expulsar o fantasma da morte que rondava perto e pôde mexer os braços, abrir os olhos. Ele bem sabia que ela havia de vir, ele bem sabia!...
O rido juvenil extinguia-se na sombra, em notas de clarim... O grupo afastava-se, sumia-se ao longe...
O moribundo tornou a deixar cair os braços, tornou a fechar os olhos e ficou-se muito rígido, muito estendido no seu banco, com um sorriso nos lábios, iludido e contente...
O céu num pálido azul-esverdeado, acentuava os tons de madrepérola como uma grande concha aberta, dourava-se levemente na orla... Uma andorinha, a primeira, passou veloz como uma seta, tente à cara dele, com um gritinho agudo de alegria...
Despontava a madrugada.

EM BUSCA DE UM NOVO RUMO

Florbela Espanca


Já homenzinho, nas longas noites de Inverno, acocorado à chaminé onde o madeiro crepite, lê embevecido, horas a fio, todo o Júlio Verne, histórias de piratas e corsários; o navio-fantasma enfeitiça-o; os naufrágios heróicos entusiasmam-no; foi durante anos todos os capitães de navios naufragados, morrendo no seu posto, aos vivas a Portugal!
No liceu sonha com a Escola Naval: é uma ideia fixa. Põe a um gato abandonado, repelente, todo pelado, encontrado numa suja travessa das imediações do liceu, o nome de "Marujo"; a uma galinha, a quem endireitara uma perna quebrada, ficou-lhe chamando "Canhoneira"; o cão, seu companheiro de folias, chamava-se "Almirante".
No dia em que pela primeira vez envergou a linda farda da Escola, quando o estreito galão de aspirante lhe atravessou a manga do dólman azul escuro, foi como se S. Pedro abrisse, diante dele, de par em par, as bem-aventuradas portas do paraíso. Era marinheiro! Sabe lá a outra gente o que é ser marinheiro! Para ele, ser marinheiro era a única maneira de ser homem, era viver a vida mais ampla, mais livre, mais sã, mais alta que nenhuma outra neste mundo! O seu forte coração, sedento de liberdade, era, no seu rude arcaboiço de marujo, como um pequeno jaguar saltando do fundo da jaula, estreita e lôbrega, contra as barras de ferro que o retêm afastado da selva rumorosa.
Ao pôr pela primeira vez o pé num navio, lembrou-se do tanque da sua infância e sorriu; o mesmo clarão de antes, de fascinação e de triunfal alegria, iluminou-lhe os olhos garços; as pálpebras tiveram o mesmo estremecimento de voluptuosidade e cobiça. O rio sempre era maior que o tanque de outrora... Quando viu fugir Lisboa, afogada nas sombras violetas do crepúsculo, e deparou com todo o mar na sua frente, a sua alma audaciosa, rubra do sangue a escachoar dos seus irrequietos vinte anos, tomou posse do mundo, num olhar de desafio!
Quando voltou, porém, meses depois, vinha desiludido, furioso contra o seu sonho, que se tinha ido quebrar, como todos os sonhos, insulso e embusteiro, de encontro à banalidade ambiente. Aquilo, afinal, era uma maçada, uma tremendíssima maçada! O mar, todo igual, monótono embalador de indolências. Não havia corsários nem piratas; o navio-fantasma era um fantasma dos seus sonhos de outrora. O mar era mais lindo nos livros e nos quadros. Os poetas e os artistas tinham-no feito maior do que ele era; afinal, era pequenino como o tanque, acabava ali perto... Não tinha sido preciso arriscar nem uma só parcela de vida; não havia no seu navio mulheres e crianças a salvar; não havia naufrágios heróicos; o capitão nem uma só vez teve ocasião de ir ao fundo, no seu posto, aos vivas a Portugal! E sorria, com uma grande ironia nos olhos claros de expressivo olhar de lutador.
Renegou o seu culto sem pesar nem remorsos, com a mais completa das indiferenças e, dum dia para o outro, o mar que tinha sido a grande quimera da sua ardente imaginação de meridional, que tinha sido a sua nova, a sua amante nos dias felizes da adolescência, foi atirado para o lado, no gesto negligente de um bebé que atira pela janela fora uma concha vazia.
"Aquilo afinal era uma maçada, uma tremendíssima maçada!" e os olhos claros, investigadores, de olhar acerado como o das aves de rapina, procuraram ardentemente outra coisa. Franziu os sobrolhos, no ar recolhido e concentrado de quem excogita, de quem procura uma solução difícil... Olhou o céu profundo... e achou! Um avião! Era aquilo mesmo. Ser aviador é melhor que ser marinheiro! É abraçar no mesmo braço o céu e o mar! na linguagem dos símbolos, a âncora, definindo a esperança, nunca poderá valer as asas, que são a libertação. A âncora agarra-se ao fundo e fica, as asas abrem-se no espaço e penetram no céu. Seria aviador! E foi.